Se há coisa que a Marvel já nos ensinou ao longo dos anos foi que, no seu Universo, nunca é certo quem morre, quem está vivo. Falamos de um universo constituído por humanos, heróis, super-heróis, mortais, imortais, mutantes, humanóides, deuses, semideuses, bruxos, seres alienígenas, etc. Figuras envolvidas em enredos, linhas cronológicas e hereditárias que, muitas vezes, não são fáceis de acompanhar ou de compreender.
Tal como o universo Star Wars ou Star Trek, o “todo Marvel” é constituído por filmes, séries em modalidades de sequelas, prequelas ou remakes que ao longo dos anos foram entregues a vários realizadores com abordagens e visões pessoais e por isso, muitas vezes, até os fãs mais conhecedores desta Enciclopédia, não conseguem acompanhar os enredos e por isso surgem teorias, muitas vezes irreais, em torno dos projetos.
“WandaVision” foi criada para o serviço de streaming Disney+ por Jac Schaeffer e realizada por Matt Shakman. Estreou a 15 de janeiro e [este primeiro capítulo] é composto por 9 episódios. Baseada nas personagens da Marvel Comics, Wanda Maximoff, a humana geneticamente modificada ou [a bruxa] Scarlet Witch e o androide The Vision. A série está ambientada no Universo Cinematográfico da Marvel (UCM) e cronologicamente está situada após os acontecimentos do filme “Avengers: Endgame”.
Elizabeth Olsen e Paul Bettany regressam aos papéis que interpretaram nos filmes e do restante elenco fazem parte Teyonah Parris, Kat Dennings, Randall Park e Kathryn Hahn. Situada três semanas após os eventos do filme de 2019, Wanda Maximoff e Vision estão a viver um estilo de vida suburbana idílica na pequena cidade de Westview, Nova Jersey, tentando esconder – a todo o custo – a sua verdadeira natureza. Mas a vida perfeita não dura para sempre…
A Marvel / Disney arriscaram muito ao desenvolver “WandaVision” como uma homenagem às sitcoms clássicas. Esta arriscada opção, bem como as competentes performances de Olsen e Bettany, valeram ao projeto boas críticas e contentamento entre os fãs.

A opção sitcom permitiu também à Marvel virar uma página na sua história, sobretudo no que à originalidade diz respeito. À leveza cómica dos primeiros episódios, a história foi crescendo e adensando o argumento. A qualidade da escrita em torno das personagens de Wanda e Vision foi muito mais profunda do que a construção e desenvolvimento das personagens na maioria dos filmes do Universo. Mas também as personagens secundárias não podem ser ignoradas, ficando ao longo dos 9 episódios mas principalmente do episódio final, que grande parte delas irá ter palco em filmes / séries futuras e até quiçá, projetos a solo. Avistam-se claramente as referências a “Doctor Strange in the Multiverse of Madness”; “Captain Marvel II”; “Ant-Man and the Wasp: Quantumania” e “Thor: Love and Thunder”.
A jornada de Wanda nesta aventura televisiva é digna de nota. A forma como as suas emoções foram retratadas, a forma como todos os episódios refletem estágios a sua dor – como a negação, a raiva, a depressão e aceitação – a maneira como é difícil assistir a criação da vida perfeita que queria para si e para Vision sabendo que nada era real, é digna de nota. Se Olsen pode ser criticada por não ser a mais expressiva das atrizes, consegue dar à sua personagem UCM um arco evolutivo que não pode ser ignorado. A Marvel já deu palco privilegiado a algumas das suas personagens principais: Iron Man e Captain America, por exemplo, mas nunca tinha mostrado a fragilidade de uma personagem feminina que foge de uma realidade difícil, criando para si e para os seus, um universo paralelo, uma jornada que a leva à aceitação final da verdade sobre a realidade e sobre si própria. Mesmo que esse conhecimento a transforme em algo potencialmente mau.
Merece destaque diferenciado a atenção que os criadores deram, neste “WandaVision”, aos detalhes. “WandaVision” é uma carta de amor à história das sitcoms e foi brilhantemente fiel às suas referências: cenários e adereços, guarda-roupa, estilo de realização, fotografia e montagem. Os detalhes envolvidos quando Wanda e Vision usam os seus poderes e até como todos esses detalhes começaram a tornarem-se cada vez menos precisos quanto mais Wanda começa a perder o controle do que acontecia (os anacronismos do episódio 6, por exemplo) são dignos de nota. Sem esquecer os detalhes sobre a própria Wanda; informações que pareciam ter sido esquecidas durante os três últimos filmes em que apareceu, como o seu sotaque ou de como parecia ter superado a morte do irmão.
Também Vision merece nota. Paul Bettany é um homem extremamente bonito e mesmo quando está com a sua andróide, isso transparece e é poeticamente belo. Apesar das suas características robóticas, Vision é de certa forma humano. As suas dúvidas, a dor por não saber bem o que era e a raiva inicial perante as mentiras de Wanda, foram superadas porque a ama tanto e porque queria estar com ela, depois de perceber toda a dor e sofrimento por que passou. O diálogo final entre o casal é intenso e reflexo de uma bonita história de amor.
Num universo povoado por vilões históricos, cabe à inesperada Kathryn Hahn ser a personagem / vilã mistério da série. Ao início era Agnes, a vizinha intrometida, depois transforma-se na bruxa vilã Agatha Harkness – que apesar de ser a má da fita, tem um papel importante no desenvolvimento e crescimento de Wanda. Hahn é soberba na forma como interage com as outras personagens e sobretudo quando aborda diretamente a câmara, com interações que oscilam entre comédia, loucura e até de consciência ou conhecimento.
“WandaVision” foi um bom, competente e bem escrito exercício. Tal como “The Mandalorian”, no universo Star Wars, que elevou a fasquia do futuro, “WandaVision” deve ter o mesmo efeito no universo Marvel. A fasquia está elevada e as próximas apostas “The Falcon and the Winter Soldier” e “Loki” têm uma prova a superar!

