Rocks: que filme é este que luta lado a lado com “Nomadland” nos prémios BAFTA?

(Fotos: Divulgação)

Depois de ter estreado no Festival de Toronto em 2019, seguido para San Sebastián, Zurique, Londres e Busan, “Rocks” adquiriu em 2020 um estranho sentido de invisibilidade, na qual a pandemia e o fecho dos cinemas tiveram responsabilidades. A sua estreia comercial no Reino Unido acabou por acontecer em setembro do ano passado, passando muito discretamente pelas salas abertas entre confinamentos. Não se falou muito dele até ontem, dia em “Rocks” ressuscitou com várias nomeações aos BAFTA, lutando lado a lado com “Nomadland”, o mais falado nesta época de prémios e o mais forte candidato aos Oscars

Foi em San Sebastián que vimos “Rocks”, na maior sala do Kursaal, completamente cheia e com a presença da autora da história e coautora do guião, Theresa Ikoko, e da realizadora Sarah Gavron (“Brick Lane”; “Suffragette”). No final da sessão, o público rendeu-se, dando uma das maiores ovações nesse ano a um filme em competição.

Theresa Ikoko, e Sarah Gavron

O foco do filme é uma jovem adolescente, Shola ‘Rocks’ Omotoso (Bukky Bakray, estrondosa na sua estreia), que num ambiente de austeridade económica e de condições de vida já muito difíceis, vê-se sozinha a cuidar de si e do seu irmão mais novo depois de ser abandonada pela mãe. Sem escolha, terá de ir viver para as ruas, mantendo-se bem longe da ação dos serviços sociais, que certamente tomariam conta dela e do irmão, mas de forma separada.

Repleto de energia e uma estética granulosa onde a câmara constantemente tremelica e cola-se às personagens, quase que as atropelando e sufocando, “Rocks” é um exemplo moderno do realismo britânico – Ken Loach, Andrea Arnold – com um forte cunho francês no retrato de jovens mulheres, como já vimos no cinema de Céline Sciamma (Bando de Raparigas), Houda Benyamina (Divinas) e Maïmouna Doucouré (Mignonnes: Primeiros Passos). Essa “força” estética vem muito da realizadora, Sara Gavron, mas igualmente da direção de fotografia a cargo de Hélène Louvart (Beach Rats) e da montadora Maya Maffioli (Dau).

Foi no Hotel Maria Cristina na cidade basca que nos encontramos com Ikoko e Gavron, com a primeira – em estreia no cinema – ainda atordoada com a receção do público local ao filme. “Quando o processo do filme começou queríamos apenas contar a história de um grupo de mulheres em Londres”, disse-nos, acrescentando que a equipa falou com “cerca de 1300 jovens que conheceram em escolas, clubes noturnos e atividades extra-curriculares”, para dar o realismo que precisavam à história.

Sarah Gavron e Bukky Bakray nas filmagens

Tudo nasceu, segundo Ikeke, a partir de um primeiro guião que funcionava como “carta de amor à sua irmã e a outras mulheres negras que tiveram de ser realmente fortes e resilientes pelas dificuldades e obstáculos que tiveram de superar”. Foi no contacto com essas jovens que o projeto começou a crescer na sua abrangência, deixando apenas de ser a “carta de amor”. “Falamos com elas sobre as suas vidas, famílias. Depois fizemos workshops com cerca de 30. Dessas, umas 10 começaram a ser mais consistentes, escolhendo as 7 que vemos em cena. Eu e a Claire Wilson tomamos muitas notas de tudo o que vimos e ouvimos na procura do que a história do “Rocks” seria. Tentamos encontrar um ângulo que honrasse o processo de tudo o que estava a acontecer”.

Vimos também muitos filmes e analisamos os seus processos”, acrescentou Gavron, citando nomes como Laurent Cantet (A Turma), Shane Meadows e os irmãos Dardenne, optando por filmar os eventos de forma cronológica. “Foram vários elementos que se juntaram, onde o conhecer a Ikeke foi central, pois sem ela o projeto não avançaria (….) Sempre adorei este género de colaboração criativa. Frequentemente, quando fazes um filme, começas a pensar que as decisões começam sempre no topo e não há espaço de manobra. Quis ser verdadeiramente honesta e dizer que há tantas vozes que só poderia fazer isto de uma forma de trabalho de equipa. A Ikeke teve tanta voz como eu e outras pessoas tiveram, tentando com isso quebrar o padrão do processo de criação de um filme“. 

Acho que subestimamos muito as audiências quando não mostramos pessoas que são diferentes deles no cinema. Subestima-se muito as audiências brancas, pois parte-se de um principio que não se vão identificar com pessoas diferentes delas. As pessoas são pessoas e querem ver pessoas”, disse Ikeke, dando ainda o exemplo de “Mustang”, de Deniz Gamze Ergüven, como um filme que adora e que serviu também como influência pessoal.

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