Já passaram 43 anos desde que “Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo” (em Portugal, Os Filhos da Droga) foi lançado. Escrito pelos jornalistas Kai Herrmann e Horst Rieck, em colaboração com Christiane Vera Felscherinow, o livro é um relato do envolvimento da jovem e dos seus amigos – com idades entre 12-16 anos – na cultura da droga Berlim Ocidental dos anos 70.
Considerado uma bomba na época pelo seu relato cruel e real do mundo da droga, Christiane F. tornou-se um símbolo global da luta contra a toxicodependência, particularmente junto dos jovens, mas também perto dos pais, tornando-se também um arquétipo a seguir para novos relatos na literatura, cinema e TV sobre os efeitos devastadores do consumo e das vidas perdidas para a dependência.
É agora através de Philipp Kadelbach, que recentemente filmou uma versão contemporânea baseada no “Perfume” de Patrick Süskind para a Netflix, que esta readaptação, com o selo da argumentista Annette Hess, chega ao streaming. Produto da Constantin Films e da Amazon, a série chega a Portugal através da HBO, mas nesta nova incursão aos “Filhos da Droga” a permanente estética pós-MTV – na viagem entre o real e o onírico – leva-nos para um lugar muito menos sombrio, sujo e temível do que esperaríamos. Se no original e na adaptação cinematográfica retratavam-se adolescentes a consumirem drogas de forma crua, realista e dura, neste novo “We Children from Bahnhof Zoo” tudo é construído de forma excessivamente sintética para dar um espetáculo visual e sonoro atraente que procura maior universalidade e intemporalidade, perdendo notoriamente força.
Movendo-se permanentemente entre o registo de videoclipe e a novela juvenil, “We Children from Bahnhof Zoo” carece de edificação de uma verdadeira empatia pelas suas personagens, que apesar de serem mais exploradas que no filme, até porque existiam 8 episódios para preencher, estão muitas delas minadas de camadas de superficialidade e até de interpretações pouco conseguidas, como a do ator que interpreta o pai de Christiane F.
Há vários pontos que nos ligam à década de 1970 em Berlim por aqui, seja o ato de fumar banal em todo o lado, a David Bowie e os seus concertos, aos penteados e as roupas, mas a constante procura em alcançar o público jovem atual, sem perder os que cresceram com o livro e o filme na mente, levou à criação de um híbrido audiovisual que nos mantém sempre distantes do impacto do material original. Um exemplo disso é a banda-sonora, cuja seleção de temas atravessam várias épocas. Repleta de músicas de Bowie, mas também de outros autores mais contemporâneos (Bloc Pary, Jungle, Cigarettes After Sex, etc), sente-se em “We Children from Bahnhof Zoo” um processo permanente de construção artificial, tornando este projeto mais numa playlist ou mixtape conseguida do que numa série com a mínima força para mexer com a consciência sobre o consumo, adições e consequências.

