Anos depois de Scorsese lançar “Tudo Bons Rapazes”, de Tarantino executar “Cães Danados” (1992) e “Pulp Fiction” (1994), e de em Hong Kong nomes como John Woo brilharem em filmes de ação policial ultra-estilizados, na Europa prepara-se uma “resposta” ao sucesso destes novos filmes de gangsters modernos, recheados de humor negro, onde predominam personagens tão estranhas como excêntricas – algo que também com o seu quê dos irmãos Coen.
Se o Reino Unido ia responder em 1998 com “Lock, Stock and Two Smoking Barrels”, lançando a carreira de Guy Ritchie [que explodiria depois com “Snatch”], em França coube a Jan Kounen essa tarefa.
Em 1997 lança “Dobermann”, filme no qual Vincent Cassel (“Irreversível”) é um ladrão de bancos que recebeu a sua primeira arma no dia do baptismo. Ao seu lado, nesta aventura hiperbólica na ação, encontramos Monica Bellucci (“Irreversível”) no papel de uma sexy cigana surda.

Fortemente inspirado também nos super-heróis e vilões dos Comics, onde armas, super-poderes e vestes ditam a personalidade e capacidades das personagens, em “Dobermann” seguimos como um gangue executa os seus golpes sempre com um sádico polícia amoral, Christini (Tcheky Karyo), no encalce.
Longe de qualquer noção de mega sucesso comercial, “Dobermann” conquistou um estatuto de culto, levando a ideias de exportação para os EUA. E o projeto teve muito perto de acontecer, por volta de 2011-2012 . Na época, a Hannibal Pictures anuncia que Cassel iria participar no remake, antes mesmo do ator se pronunciar sobre o tema. Entra então Nicolas Cage para a discussão e o projeto esteve perto de avançar, mas derradeiramente sucumbiu devido à falta de financiamento. O mesmo foi contado numa edição recente da revista Technikart por Joël Houssin, que acrescentou que o guião que escreveu chamava-se “Le Sang des flics ne sèche jamais” [“O sangue dos policiais nunca seca“, em tradução literal].
Foi a partir desta hipótese, de “Doberman” poder ter um remake e de Cage participar nele,, que questionamos recentemente o realizador Jan Kounen numa entrevista em Paris. O realizador confirmou a existência desse projeto, mas diz que não tinha nada a ver com ele. “Era uma ideia do produtor que detinha os direitos sobre o filme. Houve um momento em que quis refazer o filme, mas o Vincent [Cassel] não. Depois houve um momento em que o Vincent queria e eu não. O Doberman sem o Vincent não tem sentido, embora fazer um reboot numa minissérie com outros atores poderia ser interessante, mas de instante não tenho qualquer interesse nisso“.
Jan Kounen e a crítica
Uma das cenas mais hilariantes e polémicas de “Dobermann” é quando um dos homens do gangue – interpretado por um irreconhecível Romain Duris – defeca no meio de uma rua movimentada. A única maneira de se limpar é com uma revista francesa especializada em cinema, a “Cahiers du Cinema“, nas páginas de um artigo da época que falava dos novos realizadores gauleses.
Era impossível estar com Jan Kounen e não mencionar essa cena, perguntando-lhe a extensão da sua clara provocação, e como o realizador vê a crítica cinematográfica. “Houve um tempo em que era estudante e interessava-me pela crítica de cinema, mas depois vi a reação deles a curtas e… Bem, vi a reação deles ao Vibroboy, dizendo que era uma merda. Pensava, porque imprimem tantas páginas para dizer a jovens cineastas que as suas curtas são uma merda. Por isso fiz essa cena para o ‘Doberman‘ (…) vários cineastas avisaram-me que ia estar de castigo durante uns 10 anos por causa disso (risos)”
De “Doberman” (1997) a “O Meu Primo Desajeitado” (2020)
Qualquer pessoa que observe “Dobermann” ou “Vibroboy” não imaginaria o realizador a realizar um filme como “Mon Cousin” (2020), uma comédia de raízes familiares com um toque de romance que coloca um homem abastado e arrogante (Vincent Lindon) a tentar convencer um primo problemático (François Damiens) a assinar uns papéis, que lhe permitem controlar a empresa criada pela família.
”É um filme muito diferente de ‘Vibroboy’ e ‘Dobermann’. É um projeto que chegou por acidente.”, explicou-nos Kounan, desenvolvendo a forma como chegou ao filme: “Estava a trabalhar num filme de género com o Richard Grandpierre, que ajudou-me no ‘Dobermann’, quando ele me propôs fazer este filme. Disse-me que tinha uma comédia para mim com o Vincent Lindon e o François Damiens. Juntar estes dois numa comédia era um pouco assustador e fiquei desconfiado, mas quando li o guião encontrei coisas que achei interessantes, como o Lindon – que nos últimos anos andou em dramas sociais – a fazer do grande patrão. Além disso, permitiam-se certas experimentações que os meus filmes anteriores tinham. A ideia de meter-me neste género de comédia, feita para o grande público, com uma grande camada onírica e delírios, levou-me a pensar se era capaz de a fazer. Mas havia algo em mim que me fazia regozijar pelo projeto, talvez ligado à minha ligação aos filmes da comédia francesa que via quando era jovem, mas que são bem diferentes do meu cinema”.
Na verdade, depois de “Vibroboy” e “Dobermann”, que o colocaram na rota dos festivais, onde se tornou grande amigo de um tal de Gaspar Noé (que andava neles também com a sua curta “Carne”), Kounen prosseguiu a carreira com outras curtas até lançar em 2004 o enorme fracasso – comercial e crítico – “As Aventuras de Blueberry”, uma adaptação do universo da BD.
Seguiu-se “99 Francos” e “Coco Chanel & Igor Stravinsky”, filmes que precipitaram um enorme hiato no palco das grandes produções. Por estas alturas, Kounen ingressou nos documentários e regressou às curtas-metragens, aproveitando as novas tecnologias como a Realidade Virtual para explorar novas formas e desenvolver experiências profundamente sensoriais, que Kounen sempre quis incutir no seu cinema.



