Um dos cineastas mais prolíficos do mundo, com mais de uma centena de produções nos créditos, capaz de produzir obras de extrema crueldade e transgressão (Visitor Q; Gozu), bombas de ação musculada pelas marcas da Yakuza (Dead or alive), romances contorcidos com marcas de horror (Audition), filmes de tribunal incrustados na cultura videojogo (Ace Attorney), fitas de ação histórica ou de época (13 assassinos; Sabu), e até obras mais direcionadas para o público infantil (Zebraman), Takashi Miike vai chegar aos cinemas portugueses comercialmente já a partir de amanhã com o seu “Primeiro Amor”.
“Primeiro Amor” conta a história de um pugilista que se cruza no caminho com uma jovem obrigada pela Yakuza a prostituir-se para pagar uma dívida do pai. Com ação, humor e violência (cabeças a rolar), a obra surpreende ainda na sua ponta final ao mostrar uma sequência de ação com automóveis num registo de animação. Uma cena que o próprio Miike explicou-nos no Festival de San Sebastián em 2019 que resultava de de restrições orçamentais, o desejo de ter uma grande cena automóvel, e a cada vez menor existência de efeitos práticos e duplos jovens na indústria do cinema nipónico: “Cada vez há menos gente especialista nesta arte na indústria japonesa – e talvez também seja assim no ocidente. A indústria tenta cada vez mais evitar acidentes de trabalho e pagar mais por isso, por tal prefere-se recorrer ao CGI. (..) Nisto, temos verificado um envelhecimento desses especialistas, limitando as opções e encarecendo todo o projeto“.

Filmes Yakuza em extinção
Foi numa conversa com a Deadline, no Festival de Macau em 2019, que Miike explicou as evidências de que a indústria japonesa de cinema está a morrer lentamente, vincando aquilo que já tinha dito em San Sebastián sobre a cada vez menor apetência dos produtores nipónicos apostarem em filmes onde a Yakuza [máfia japonesa] está em destaque: “Os filmes da Yakuza estão em perigo de desaparecer. Os jovens procuram histórias de amor leves e animé, e os cineastas perderam a coragem de arriscar. A indústria cinematográfica japonesa está seguramente a morrer lentamente. Por isso, meti a Yakuza em tumulto no meu novo filme [First Love] como uma forma de proteger a diversidade“.
Vendido no Japão como uma história de amor, “Primeiro Amor” é, nas palavras de Miike “um filme sobre o mundo dos Yakuza, no qual a maioria das suas gentes leva uma vida miserável, sem sentido. O que queria apresentar com este filme era que, inclusivamente neste tipo de gente, pode surgir de forma inesperada uma história de amor.”
Já sobre as personagens, Miike disse ao C7nema em Cannes que o que as norteia é “uma dicotomia entre bondade e franqueza. Ajudar o próximo é abrir uma porta para ser abusado, ser usado? Isso é parte da Comédia Humana em que vivemos. Até os gangsters fingem ser o que não são para sobreviver. É isso que quero estudar. Essa arte de fingir.”

Estética
Ao C7nema, Miike explicou os seus princípios, descrevendo a sua estética como algo muito particular, que alguns consideram “excessiva”, mas que entende como um reflexo de tudo o que viu. “Os meus filmes circularam muitas vezes em Cannes, o que me deixa muito contente, por saber que furei um bloqueio inerente a esse veio, que é considerado só como entretenimento descartável. Na ação, eu ponho o movimento, o tempo e espaço à prova.”
Um cineasta prolífico
De onde vem esse ímpeto de produzir tanto, fora razões comerciais? Esta foi a pergunta de Rodrigo Fonseca do C7nema a Miike em Cannes, ao que ele respondeu que tudo se tratava de uma questão de disciplina: “Como organizo-me de modo a filmar rápido e barato, não gosto de deixar o tempo ocioso. Há muito a ser dito. Eu inspiro-me muito nos clássicos de samurai de Kurosawa, ainda que eles já não sejam mais um objeto de estudo para as novas gerações no Japão. Cresci com os filmes dele, assim como o de outros mestres do meu país, mas instiga-me a possibilidade de partir de uma trama de género para investigar fraturas morais. O meu empenho, ao dirigir cenas de ação em filmes como First Love, não está em roubar ideias de Kurosawa e sim em levar questões do presente, do meu mundo, para um universo que ele lapidou, não só o dos guerreiros samurais, mas de outros heróis.“
Medo
Se muitos de nós desviamos o olhar quando em “Audition” começamos a ouvir o famoso “Kiri–kiri–kiri”, Miike também não fica indiferente o seu trabalho, tendo mesmo nos sets se sentido mal. “Tenho a dizer que já me senti mal a gravar os meus próprios filmes de horror. Reconheço que senti-me mal a rodar algumas cenas de Audition. Mas é uma forma de me sentir mal muito estranha e diferente de qualquer outra: é um medo divertido, com o qual passas um bom bocado. Já sobre o cinema de terror que os outros fazem, prefiro não o consumir, pois causam-me angústia. Os [filmes] que Kiyoshi Kurosawa faz, por exemplo, aterrorizam-me. Prefiro ver um bom filme de artes marciais. Os de Bruce Lee encantam-me desde pequeno, desde que vi O Dragão Ataca. O fascínio que me provocava a mim e aos meus amigos era imenso. Bruce Lee, nos dias de hoje, continua a ser um Deus para mim. Amen.”, disse Miike ao El País em 2015.

