Emily in Paris: América vs França

Uma espécie de "Sex and The City" para adolescentes, com estética de "Gossip Girl" e muito tendenciosa no que diz respeito à abordagem da cultura francesa.

(Fotos: Divulgação)

Não é desconhecido que a ausência de história dos EUA é um fator a ter em conta quando a narração que é contada envolve americanos a terem contacto com uma cultura diferente, sobretudo europeia. Se neste continente há séculos de história, de respeito pelas instituições e que foi palco de movimentos culturais e sociais que são o alicerce de tudo aquilo que somos, nos EUA há uma espécie de vazio que faz com que os americanos olhem para aquilo que não conhecem e que não compreendem, com um ar de estranheza e sobretudo de presunção simulada.

Esta introdução é essencial para falar deste novo projeto televisivo de Darren Star, o homem a quem seremos eternamente gratos por “Sex and The City“, uma série moderna para a sua altura, que mostrou sem medos ou inibições as aventuras de quatro mulheres americanas, na América.

Emily in Paris” foi incluída no catálogo Netflix a 2 de outubro de 2020 e é protagonizada por Lily Collins. Emily é uma mulher americana que, depois de receber uma oportunidade de trabalho única, vai viver para Paris e experienciar um choque cultural.

A premissa de “Emily in Paris” é estereotipada: a personagem principal trabalha com marketing e redes sociais e é envolvida em aventuras clichés na cidade do amor, da luz, dos sonhos e do sexo. Estes quatro elementos e o cenário Paris bastariam para fazer algo interessante mas não: Star consegue o feito de transformar o projeto em algo enfadonho e falso, ao ter uma personagem principal que, em todas as barbaridades em que se envolve, é salva por magia.

Já não há muita paciência para esta espécie de heroína coquete que salva o dia sem se perceber bem como. Há ainda menos pachorra para ver um conto de fadas em que toda a gente é bonita, bem vestida e rica.
A série tenta ter um toque parisiense mas este é abafado pelo idealismo excessivamente simplista que nos alimenta diariamente nos media pelo predomínio americano dominante.

Mas o mais grave nesta aventura da “Emília em Paris” é a forma depreciativa com que aborda alguns elementos culturais franceses, sobretudo as suas perspectivas únicas e históricas em torno do amor e das relações amorosas, sobre a forma como os franceses preferem a tragédia e o realismo em vez dos finais felizes americanos. Ter uma americana a ser a voz da razão sobre o empoderamento da mulher perante a nudez feminina clássica da estética francesa – abordada na série como sinónimo de objetivação da mulher – é atormentador.

E quão irritante é ver Emily a chegar ao escritório às 8h30 em contradição com os seus colegas franceses que só começam a trabalhar às 10h/11h – como se entrar cedo fosse sinónimo de maior eficiência ou eficácia.
Igualmente incomodativo é ver a forma como é tentado diminuir a alta-costura francesa com a cultura urbana americana, uma tentativa idiota que em nada beneficiou uma ou outra. Os americanos são tratados como egoístas e não respeitadores da história da Moda e o estilista francês – cujo nome é quase igual a Pierre Cardin – é exposto como uma galinha histérica.

Mesmo perante a receita simples, “Emily in Paris” podia ser mais do que um simples colírio visual e frívolo. Em 2020, petit bombons não chegam para aguçar os apetites de um público mais exigente (feminino ou masculino). “Pardon her américanise“…

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