Quando está em boa forma, como em “Blade Runner” e “Alien” o comprovaram há 4 décadas, Riddley Scott é capaz de entregar ouro no reino da ficção científica, mas ainda que este “Raised by Wolves” esteja vários furos abaixo desses dois clássicos do cinema, não deixa de ser um objeto curioso para o pequeno ecrã nesta era do streaming, mesmo que pela enésima vez se (re)avalie a relação entre humanos e máquinas, e se trilhe por terrenos pedregosos da teologia, das armadilhas da fé, da natureza indomável do homem, e – claro – do conceito de família.
Tendo em conta outras incursões do cineasta mais recentes – “Prometheus“, “The Martian“, “Alien: Covenant” – este “Raised by Wolves” cumpre sem brilhar e apresenta um novo universo distópico com algum interesse de seguir, embora se sinta que tudo por aqui já foi visto algures, até dentro do próprio cinema de Scott, particularmente nos dilemas enfrentados pelos seus andróides, presos entre missões, programações e sensações.
Adão e Eva longe do paraíso
Embora o nome de Scott esteja na realização de dois episódios e na produção executiva de todo o projeto, esta é uma criação de Aaron Guzikowski (“Prisoners“) onde somos introduzidos a dois andróides sencientes e andróginos – o Pai (Abubakar Salim) e a Mãe (Amanda Collin) – que pousam num planeta distante, Kepler-22b, um dos poucos habitáveis para os humanos (em extinção). É nesse lugar que a “mãe” dá à luz seis bebés humanos (três meninos e três meninas de várias origens étnicas) e cria-os livres de qualquer ideologia religiosa ou política que, como é explicado, causaram a queda da raça humana no planeta Terra, quando fanáticos religiosos lideraram uma cruzada para livrar a civilização dos não crentes.
A cinza predomina nas imagens arenosas e severas deste planeta (cenas filmadas na África do Sul) com os seus perigos abundantes, não só na forma de monstruosas criaturas à espreita na escuridão, mas também de inimigos invisíveis (doença), e principalmente um grupo religioso denominado de Mitraicos (inspirado num culto do tempo dos romanos), que navegam numa “arca” e procuram no planeta retirar as crianças aos andróides.
É à medida que todos estes perigos vão surgindo neste ‘Éden’ que se vai revelar a força de a “Mãe”, que algures entre o arcanjo e o robô transforma-se numa espécie de estátua de bronze voadora que vai eliminando (explodindo literalmente) com qualquer inimigo através do seu “grito banshee”.
Colocados perante dúvidas implantadas pelo líder da expedição humana, Marcus (Travis Fimmel), que tenta semear a desconfiança entre os filhos e a “mãe”, e igualmente surpresos pelo poder destruidor da figura maternal, os humanos começam a questionar os ensinamentos da matriarca, desafiando frequentemente as suas regras e ideias.
Pelo que se viu nos três primeiros episódios, todos eles carregados de tensão, “Raised by Wolves” tem potencial para se tornar numa novela espacial de relevo no panorama da TV, e ao mesmo tempo ganhar um certo culto pela estética splatter da sua violência, mas terá que certamente manter a qualidade da luxuosa produção e apresentar/construir novas personagens e histórias (sejam do presente ou do passado) que entreguem um enredo que vá além do óbvio e seguro, como se viu nestes capítulos.






