Trigonometry: amor a triplicar

Uma jornada em torno de uma relação não convencional mas única, interessante e espontânea, filmada de forma muito digna.

(Fotos: Divulgação)

Diz o provérbio popular português “três, a conta que Deus fez”…

A iconografia do número é nobre. O número três representa a unidade divina. Para as civilizações clássicas (Grécia e Roma) incluía a tríade principal do panteão de divindades: Júpiter, Netuno e Plutão; Zeus, Poseidon e Hades, que para reforçar a sua importância, eram representadas com símbolos que reforçavam a referência ao três – o raio de Júpiter, o tridente de Neptuno e o cão com três cabeças de Plutão, por exemplo.

O três é intrínseco ao dogma da Santíssima Trindade, representa o ciclo da vida – nascimento, vida e morte – e também é conhecido na área das relações humanas pelo célebre ménage à trois… a facilidade com que a simbologia vai do sagrado ao profano!

E é precisamente nesta aritmética que está o foco deste texto. “Trigonometry”, a série disponível no catálogo HBO.
Se tivesse título nacional, e se fosse traduzido à letra, seria “Trigonometria” – um ramo da matemática, que teve origem na Babilónia e que estuda as relações existentes entre os lados e os ângulos dos triângulos.

Ariane Labed, Gary Carr e Thalissa Teixeira são os protagonistas da série que a HBO adquiriu à BBC e que devia promover insistentemente, sem inibições e não limitá-la a um banner na pagina principal ou a um anúncio mecanizado nas redes sociais.

Trigonometry” conta a histórica de um casal, uma chef e um paramédico que alugam um quarto do seu apartamento londrino a uma ex-atleta olímpica.

A história da série britânica aborda a perspetiva das 3 personagens. Explora a relação de Gemma (Teixeira) e Kieran (Carr), um casal que tenta fazer com que a sua relação sobreviva, mas que também luta para ultrapassar dificuldades económicas e aborda também a história de Ray (Ariane Labed) após o abandono da natação sincronizada e a tentativa de autonomização perante os seus protetores pais.

Na narrativa, é logo – desde o início – muito explicito que Gemma é bissexual e que o marido sabe e respeita a orientação sexual da mulher, um ponto determinante para a história.

Entre os oito episódios da série, assistimos ao crescer de uma relação entre o casal e a inquilina, que passa de uma amizade à cumplicidade de uma relação amorosa a três.

Estranhamente, a HBO catalogou “Trigonometry” como “comédia”, certamente uma decisão feita por alguém que não viu a série e que, provavelmente, só deambulou por uma pesquisa Google, encontrou imagens fofinhas e considerou-a “divertida”. Também o é, mas limitar a série britânica a uma singela palavra é castrador. Determinar um único rótulo para a serie escrita e criada por Duncan Macmillan e Effie Woods é injusto. “Trigonometry” é sobre ligações humanas, que por mais estranhas ou ambíguas que pareçam são essenciais para o bem-estar e para a felicidade.

Entre os três elementos da relação existe um equilíbrio primoroso que é alicerçado numa tríade de relações individuais que ao mesmo tempo formam um bloco coeso e distinto entre si. É ao terceiro elemento da relação, Ray que cabe o papel de “cola” ao casal central da história.

A escrita de Macmillan e Woods é consolidada de forma quase poética por Athina Rachel Tsangari (“Attenberg”) e Stela Corradi (“Little Soldier“) que realizam a série – a primeira é responsável por cinco episódios e a segunda, por três. São estas duas mulheres que encaixam todas as peças do enredo e que não descuraram das três perspetivas diferentes em momento algum e que dão a “Trigonometry” um ritmo peculiar, colectivo mas ao mesmo tempo, particular. Uma harmonia e dinâmica que, transformam o trio numa unidade.

São belos os momentos em que as palavras são substituídas por olhares ou gestos, sinónimos de cumplicidade perfeita – especialmente as cenas filmadas na casa de banho. O trabalho de realização e a fotografia dão planos simples, belos que transparecem sentimentos, partilha e amor físico e sentimental. São filmados, de forma exímia pelas câmaras de Macmillan e Woods, afetos, cumplicidade e intimidade.

O risco de resvalar em vulgaridade era imenso. Autores e realizadoras podiam ter optado por clichés e até mesmo por dotar a história de uma maior sexualidade, mas isso não foi opção. “Trigonometry” é digna de ser vista e de ser apreciada em cada detalhe, um hino ao amor, seja ele de que forma for.

Uma série bem informada, bem escrita, bem filmada. Obrigatória!

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