Jozi Gold: nem tudo o que luz é ouro

(Fotos: Divulgação)

Em virtude da crise global causada pelo Covid-19, o CPH: DOX decidiu lançar sua edição 2020 numa versão digital. Uma edição que o C7nema seguiu com particular atenção

Já com vários documentários no currículo, o realizador Fredrik Gertten faz as manchetes mundiais ao denunciar no seu documentário Bananas! em 2009 a forma como as condições dos trabalhadores da empresa Dole Food na Nicarágua são expostos a riscos, recolhendo inúmeros depoimentos de pessoas que afirmam terem ficados estéreis devido à laboração.

A empresa não gostou nada dessas acusações e desacreditou mesmo o realizador, afirmando que ele apresentou testemunhos falsos de trabalhadores que foram organizados por um advogado co segundas (e terceiras) intenções. A guerra entre cineasta e empresa foi tal (e envolveu a proibição do filme surgir em alguns festivais) que anos depois o mesmo cineasta abordou as quezílias no documentário Big Boys Gone Bananas!* (2011).

Depois disso, voltou a dar nas vistas no provocante Bikes vs Cars (2015) e naturalmente em Becoming Zlatan (2015), filme sobre o enfant terrible do futebol mundial, Zlatan Ibrahimovic. Foram precisos quatro anos para o realizador sueco regressar, desta vez num registo de estudo de sustentabilidade das cidades e o planeamento das mesmas (como Bikes Vs Cars o fazia) em Push – trabalho centrado no mercado do imobiliário que explorava porque não temos dinheiro para – cada vez mais – viver nas cidades.

Premiado no CPH:Dox por Push, Gertten regressou ao certame, desta vez ao lado da jornalista veterana Sylvia Vollenhoven para visitar a África do Sul, em particular a Joanesburgo (Jozi, como também é conhecida localmente), e mostrar como quem habita nesta metrópole sofre há séculos com problemas derivados da exploração mineira.

A figura central é a antiga testemunha de Jeová – agora transformada em ativista ambiental – Mariette Liefferink, uma mulher que à primeira vista descreveriamos redutoramente como uma “coquete“, mas que dedica o seu dia a dia naquilo que se pode descrever como uma Erin Brockovich sul-africana em pleno confronto com as empresas de mineração mais ricas do território.


O filme faz igualmente uma viagem à história do país, mostrando que quando se acentuou o isolamento da África do Sul a nível mundial devido ao Apartheid, o país sobreviveu através da exploração de minas de ouro, com muito urânio a ser libertado no processo. Ora, após essa “era dourada”, cerca de 1,6 milhões de pessoas ficaram a viver em áreas radioativas, zonas empoeiradas e repletas de lençóis de água contaminados que diariamente destroem o sistema imunitário dos habitantes. E mais: convém lembrar que a exposição acentuada de radiação reescreve o código genético, tendo implicações inevitáveis nas gerações vindoura, nos descendentes destes sacrificados e pobres que vivem em áreas áridas de solos ácidos onde é incapaz de crescer qualquer coisa.

Munido de imagens de arquivo, entrevistas e simples retratos das reuniões e diálogos que Liefferink vai tendo na sua jornada diária, Gertten e Vollenhoven entregam um documentário de cariz jornalístico urgente que demonstra – mais uma vez – como a economia continua a produzir a insustentabilidade do planeta e a criação desenfreada de desigualdades sociais, raciais e territoriais.

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