Em virtude da crise global causada pelo Covid-19, o CPH: DOX decidiu lançar sua edição 2020 numa versão digital. Uma edição que o C7nema seguiu com particular atenção
“Não estamos aqui pelos votos, mas para cortar algumas cabeças“. Estas são as primeiras palavras que se ouvem no documentário The Accused, a nova incursão do cineasta canadiano Muhammad Ali Naqvi, que anteriormente realizara Among the Believers (2015) e Insha’Allah Democracy (2018) – os quais, abordavam em diferentes contextos a precária democracia no Paquistão e a forma como a religião ainda se intromete no Estado e na sociedade.
Se em Among the Believers (2015) [presente no Doclisboa em 2016] seguíamos uma escola islâmica radical que treinava legiões de crianças a dedicarem as suas vidas à jihad, aqui nesta nova incursão pelo Paquistão assistimos como a lei da blasfémia tem provocado vítimas em qualquer minoria não islâmica. O foco incendiário de defesa a esta lei dos tempos do colonialismo britânico, que ganhou nova força com um adenda nos anos 80, é a figura de Khadim Hussain Rizvi, fundador do partido religioso Tehreek-e-Labbaik (TLP), que cercado de multidões incentiva a morte de todos aqueles que ofendem “o Profeta”, sendo particularmente explícita a maneira como tenta condicionar a democracia paquistanesa e os seus agentes, como advogados, juízes ou meros cidadãos que defendem os direitos humanos. É desarmante ouvir um governador não mostrar receio pelas sucessivas fatwas orientadas a si (até os papagaios de papel já tinham algumas, brinca a certo momento), mas logo depois vermos imagens do seu assassinato e a transformação do assassino num mártir e exemplo a seguir.

Gulalai Ismail e o pai de Mashal Khan
E embora se vagueie por casos atrás de casos, este documentário assenta principalmente arraiais nos processos de Asia Bibi, uma cristã acusada de blasfémia e que pode ser condenada à morte; de Mashal Khan, um jovem estudante espancado até à morte a Universidade; de Patras Masih, outro estudante que aparentemente compartilhou conteúdo blasfemo online; e de Gulalai Ismail, ativista dos direitos humanos com um alvo nas costas por promover uma “agenda ocidental” e “anti-islâmica”.
Naqvi usa uma quantidade impressionante de imagens de arquivo e testemunhos para cronologicamente mostrar a ascensão do poder da palavra e do ódio nas hostes do Tehreek-e-Labbaik e do seu líder, produzindo um retrato alarmante de uma guerra a decorrer há décadas no interior da própria sociedade paquistanesa e que ameaça a democracia estabelecida, que entre o populismo clerical e o do estado, muitas vezes a cair no regime ditatorial patriarcal, esmaga qualquer plano ou tentativa de emancipação e liberdade individual nas ideias, religião e tendências políticas.

