Irradiés: Registos de guerra na poesia da desconstrução das aparências

O novo documentário de Rithy Panh estreou na Berlinale

(Fotos: Divulgação)

Inspirado pelo legado de Alain Resnais (1922-2014) na sua desconstrução das aparências nas relações sociais, “Irradiés“, o único documentário entre os 18 concorrentes ao Urso de Ouro de 2020, usa a palavra “maldade” múltiplas vezes na sua breve narrativa (88 minutos), atribuindo o substantivo à condição ontológica humana. “Exclusão”, verbete que é sinónimo de práticas de poder, é traduzido em diversas imagens raras, garimpadas pelo cambojano Rithy Panh, com exercícios de morte. Diversas guerras são revisitadas na longa-metragem, da mesma forma como são revistas situações intolerantes de escravidão. A bomba de Hiroshima, e a hecatombe nuclear a ela inerente, é um dos assuntos mais revolvidos pelo realizador de “A imagem que falta” (prémio Un Certain Regard em Cannes, em 2013), no seu novo e mais maduro trabalho. Nele, registos documentais misturam-se a coreografias de butô e a textos líricos lidos em francês por Rebecca Marder e André Wilms.

O Mal e a Esperança alternam-se nesta narrativa que usa a repetição, sempre que necessário, a fim de devolver a imagens do passado uma dimensão poética. Há muita informação hoje nas telas, mas pouca contemplação, algo que se estabelece quando a dimensão crítica do cinema se faz presente, a partir de um questionamento das práticas intolerantes“, disse Panh em resposta ao C7nema, que explicou a criação da sofisticada banda sonora de “Irradiés”: “Há uns 35 anos que trabalho com Marc Marder e nós buscamos um desenho sensorial que potencialize registos de dor. Não quero que esse filme soe como um catálogo de situações violentas, mas sim de imagens que me tocam e me levam a um lugar de inquietação“.

Comparado a alguns dos momentos mais poéticos de Jean-Luc Godard no terreno documental (como “JLG por JLG – Autorretrato de Dezembro”), embora seja menos rizomático do que a obra do franco-suíço, “Irradiés” assume como título uma referência ao cogumelo atómico que varreu cidades japoneses em 1945. “Quando cheguei a França, vim do Camboja cheio de histórias para contar, mas não havia interlocução. Quem quereria ouvir um estrangeiro falar de estratégias de sobrevivência? Foi nesse momento que, a partir do cinema de Alain Resnais e de Souleymane Cissé, encontrei um modo de expressão a partir de filmes que reagem, indo na margem oposta ao imediatismo do cinema comercial”, disse Panh.

Este sábado serão conhecidos os vencedores dos júris oficiais e, no domingo, os prémios de júri popular da mostra Panorama serão divulgados. “Dau. Natasha“, de Jekaterina Oertel e Ilya Khrzhanovskiy; “Sibéria“, de Abel Ferrara”, “Never Rarely Sometimes Always“, de Eliza Hittman; “First Cow”, de Kelly Reichardt; “Berlin Alexanderplatz“, de Burhan Qurbani; e “There is no Evil“, de Mohammad Rasoulof, são os títulos com mais chances de saírem da Alemanha premiados.

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