Novas descobertas da Berlinale 2020

(Fotos: Divulgação)

Termina este domingo a 70ª edição do Festival de Berlim, com a entrega do Urso de Ouro na véspera do encerramento, promovendo uma triagem do que se viu de melhor até agora na seleção de Mariette Rissenbeek e Carlos Chatrian, tendo o ator Jeremy Irons na liderança do júri.

Na reta final, algumas surpresas surgiram pelas telas.

Télé Réalité, de Lucile Desamory, Glodie Mubikay e Gustave Fund

Um dos destaques do Fórum, esta coprodução entre Bélgica e Congo brinca com a presença do Diabo na Terra a partir de uma celebração dionisíaca do carnaval, parte na Europa, parte na África, criando uma situação memorável: a conversão de um pote de cinzas de um corpo cremado em confetis.

Digger, de Georgis Grigorakis

Gestada silenciosamente na Grécia, este drama de seiva política tornou-se uma das produções mais elogiadas da seção Panorama. Num pesaroso tom trágico, vitaminado pela montagem reflexiva de Thodoris Karvelas, este drama sobre a solidez que se desmancha no ar – pela ausência de dialécticas sociais – parte de um deslizamento de terra na região onde fica uma pequena propriedade rural… uma cabana. Seu dono, Nikita (Vangelis Mourikis) vive agrilhoado à modorra do Tempo, nesse local de lama, até que seu filho regressa, depois de 20 anos de ausência, para cobrar a herança materna. Mas a situação já tensa entre os dois vai-se agravar com a presença de uma construtora que quer apoderar-se do local. Nesse enredo, Sófocles dá as mãos a Karl Marx em neste estudoo sobre a erosão dos afetos.

Wildland (“Kod & Blod”), de Jeanette Nordahl

Neste thriller escandinavo de alta tensão nos diálogos, uma adolescente órfã de mãe vai morar com os primos e uma perigosa tia, numa casa que encara o crime como um passaporte para uma vida confortável. O guião é um estudo sobre lealdade, fincado nas angústias de uma jovem em relação a uma ideia nada saudável de convivência familiar.

“Days”, de Tsai Ming-Liang

Logo nos momentos inicais desta catedral do silêncio, o diretor de “O Buraco” (1998) nos avisa que não haverá legenda para a sua experiência de observação na vida de dois homens de idades distintas que compartilham apenas uma noite de sexo e uma caixinha de música. Mas no seu passeio por situações corriqueiras, como descascar curgetes e fazer massagens a óleo, o realizador de Taiwan desafia a amoralidade das narrativas num filme que explode o verbo “viver” em todas as suas desinências.

The Roads Not Taken, de Sally Potter

Confeccionado nos tecidos de uma mortalha familiar da cineasta de “Orlando” (1992), ligada a uma degeneração mental de um irmão da realizadora, este melodrama entrega uma atuação avassaladora de Elle Fanning e de Salma Hayek. A primeira vive Molly, uma jovem cujo pai, o escritor Leo (Javier Bardem, em mais uma impecável atuação), vive num estado de demência, perdendo a lucidez. Salma é um amor do seu passado, que flana por sua fraturada consciência.

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