O realizador sueco de origem argelina Malik Bendjelloul não se pode queixar de falta de sorte quando, em 2006, decidiu perambular por África atrás de “uma boa história para contar“. Foi dar com ela na cidade do Cabo, através do proprietário de uma loja de discos chamado, curiosamente, Stephen “Sugar” Segerman. O realizador tinha razão, como o espectador pode concluir de À Procura de Sugar Man, em ficar extasiado com aquilo que lhe contou Segerland.
Sem oferecer maiores pormenores, basta dizer que tudo gira em torno de um ícone musical da classe média sul-africana no final dos anos 60, um tal de Rodriguez. Os seus vinis andavam em todas as coleções de bom gosto – ao lado de ídolos mundiais como os Beatles ou Bob Dylan. A viver num regime de bloqueio internacional total devido ao apartheid e governado internamente por um regime semi-ditatorial, os sul-africanos tinham pouco acesso à informação – transformando em ídolo alguém que não faziam a menor ideia quem era. Até que, já na década de 90, um jornalista, Craig Bartholomew Strydom, resolveu investigar: quem, afinal, era/foi Rodriguez? Depois de um complicado processo de pesquisa, o resultado foi a reconstrução de uma história inesquecível.
À procura de dinheiro
Tão difícil quanto a pesquisa de Strydom foi transformar aquela história em filme. Uma coisa era um realizador relativamente desconhecido (responsável por algumas biografias musicais) achar que tinha algo extraordinário para contar: outra, muito diferente, era encontrar gente com dinheiro que concordasse com ele. O resultado foi que, enquanto vegetava à espera de um telefonema que nunca chegava, Malik Bendjelloul resolveu ir à luta sozinho: depois do seu trabalho de filmar, aventurou-se por outros ramos que não eram o dele – desde as animações utilizadas até a edição musical.
Tudo mudou quando Simon Chinn decidiu atender uma chamada (telefonemas anteriores nem tinham passado da secretaria) do já exasperado cineasta, que na altura amargava três anos sem receber e na iminência de ter que ir “procurar um trabalho a sério”. Chinn vinha de um Óscar com “Homem no Arame” (2008) e a sua entrada foi decisiva para que o filme fosse, finalmente, terminado.
Os brancos contra o apartheid
Outra história muito pouco conhecida que é também recuperada no filme é a dos “afrikaans”, jovens brancos que já no final dos anos 60 defendiam, ainda que soterrados pela mão pesada de Pieter Botha, o fim do sistema racista do país. Segundo Bendjelloul, este desconhecimento entende-se porque, desde que Nelson Mandela tornou-se o líder político do país após o fim do regime, a sua política foi de conciliação. “Desde que Mandela chegou ao poder pouco se fala sobre esse tempo. É estranho que durante quase 50 anos – até meados dos anos 90 – tivesse havido um país no mundo que sobrevivia com uma ideologia semelhante à do Terceiro Reich. Nunca tinha ouvido falar de um movimento opositor liberal branco”, observa.
Música
Num filme onde o que transparece, por fim, é o amor a música de todos os envolvidos nele, nada disto seria tão grandioso não fosse, também, a música de Rodriguez. E essa foi a primeira dor de cabeça do realizador depois de ouvir a história sem conhecer a música. “Fiquei tão apaixonado pela história que quase tive medo de conhecer a obra – pensei que havia muito poucas hipóteses de que a música fosse tão boa como a história. Mas quando comecei a ouvir, nem queria acreditar!”, relatou.
Embora seja chamado de folk, a música dele também tem elementos de blues, de rock e de pop. Com apenas dois álbuns lançados, “Cold Fact” (1970) e “Coming from Reality” (1971), nenhum fã do rock dos “70s” há de dizer que canções como “Sugar Man” não estão ao nível dos melhores.
Encanto mundial
A obra beneficiou de um consenso quase unânime em termos de crítica mundial, aparecendo em muitas listas de melhores do ano reunindo uma coleção considerável de prémios. Entre estes, destaque para um Oscar e um Bafta na categoria de Melhor Documentário.

