Depois de “Serbis” (passou no IndieLisboa), “Kinatay” e “Lola”, o filipino Brillante Mendoza chega de novo ao nosso mercado com “Cativos”, um drama protagonizado pela francesa Isabelle Huppert que se foca no sequestro de um grupo de hóspedes de um resort na ilha filipina de Palawan por parte do grupo separatista islâmico Abu Sayyaf.
Baseado em crises de reféns reais que ocorreram nas Filipinas, como os raptos de Dos Palmas (2001) e outros sequestros pelo Abu Sayyaf, “Cativos” procura de forma sequencial mostrar a tensão e terror dos eventos, ganhando com isso um naturalismo e realismo que Mendoza teima em nunca abandonar. “Fiz isto porque queria deixar os atores sentirem o medo e a essência de serem raptados. Queria que eles tivessem a experiência “do rapto” o mais próxima possível da realidade e os acontecimentos que se sucedem enquanto estão em cativeiro”, afirmou Brillante Mendoza, que confessa não querer simplificar os eventos na tradicional (e superficial) forma de separar o bem e o mal. “O meu retrato dos raptores do GAS é claramente multidimensional. Tal como qualquer outra pessoa, eles podem ser vistos como tipos normais – podem por vezes ser divertidos, zangados e violentos noutras, até mesmo bondosos e compassivos em determinadas circunstâncias. Como cineasta, tento sempre trabalhar como um jornalista. Tento mostrar o maior número possível de versões de determinada situação, independentemente das minhas crenças e causas pessoais.”
Reféns e raptores separados nos bastidores
Talvez uma das opções mais curiosas de Mendoza foi separar a convivência entre os atores, consoante estes desempenhassem o papel de raptores ou raptados. “Queria criar um muro cultural entre os dois grupos”, diz Mendoza, que confessa que “a atriz Isabelle Huppert, tal como os outros atores, nunca se encontrou com os seus colegas até ao primeiro dia de rodagem, no exacto momento em que se dá a cena do sequestro”. Huppert confirma a estratégia do cineasta. “Quando cheguei, não conhecia ninguém e os atores que interpretavam os terroristas eram particularmente assustadores.” A francesa confessa que conheceu Mendoza na cerimónia de encerramento do Festival de Cannes 2009, no qual foi presidente do júri, mas foi em São Paulo, no Brasil, que surgiu o convite para participar no filme.
Isabelle Huppert
É uma das atrizes mais ativas no cinema e acima de tudo procura na diversidade de papeis e cinematografias mostrar o seu valor. Recentemente trabalhou nos EUA em “Dead Man Down – Um Homem a Abater” com Niels Arden Oplev, em Itália em “Bella addormentata”, de Marco Bellocchio, na Coreia do Sul em “In Another Country”, de Hong Sang-soo, em França no “Amor” do austríaco Michael Haneke, e até em Portugal filmou algumas cenas de “As Linhas de Wellington”. “Quanto mais longe uma pessoa viaja no mundo exterior, mais tem a sensação de ultrapassar os limites daquilo que pode atingir interiormente. Sinto-me atraída por cineastas que estão muito distantes de onde eu me encontro, pois considero que esta combinação pode produzir coisas inesperadas. É quase orgânico, resultante do simples facto de ser transportada para outro universo.”
Neste “Cativos”, Huppert desempenha o papel da assistente social francesa Therese Bourgoine, uma mulher apanhada no meio do sequestro, tendo encontrado no livro de Ingrid Betancourt “Até o Silêncio Tem um Fim”, sobre o seu rapto pelas FARC, a inspiração para a sua personagem.
Como confessou ao Les Cahiers du Cinema, “Durante a rodagem, li o magnífico livro de Ingrid Betancourt, o que foi formando a minha personagem: a exaustão absoluta, a sensação de que nunca iria acabar, o ser continuamente movimentada de um sítio para outro.”
Mendoza e o futuro
Ainda inédito entre nós, mas com presença no próximo IndieLisboa, está “Thy Womb”, o último filme lançado pelo cineasta.
Na obra, profundamente humanista, seguimos uma mulher (interpretada por Nora Aunor) que após um terceiro aborto espontâneo já não acredita que poderá cumprir o sonho do seu marido. Filmado num estilo profundamente realista e com forte atenção aos detalhes da ruralidade, a obra segue então numa jornada familiar em busca de uma mulher fértil que possa dar um filho ao homem. Quando esta é encontrada e as coisas ficam acertadas para um segundo casamento do seu esposo, um sentimento de ciúme apodera-se da mulher.
Mendoza adverte na sua nota de intenções que esta obra examina duas naturezas opostas das mulheres: à fertilidade de uma opõe-se a esterilidade de outra. Com isso ele procura também refletir as condições predominantes em Tawi-Tawi, uma província Filipina presente na Região Autónoma Muçulmana de Mindanau. Se por um lado temos um local repleto de recursos naturais e extrema beleza, por outros vemos o sofrimento geral com a crise económica e problemas sociopolíticos. Um inferno de um paraíso.
Sapi, o “Atividade Paranormal” de Brillante Mendoza
Numa entrevista bastante interessante em dezembro passado ao Film De Culte, o filipino admitiu que o seu próximo projeto era um filme de horror e um drama social que conta a história de uma possessão. «… será uma espécie de “Atividade Paranormal” filipino…», adiantou Mendoza à publicação francesa, acrescentando que escreveu o guião conjuntamente com Henry Burgos (argumentista de «Thy Womb»).
Já em fevereiro deste ano tivemos acesso ao primeiro teaser trailer da obra, conhecendo-se alguns detalhes do enredo, que acompanha um jornalista (Dennis Trillo) e uma equipa de reportagem envolvida num frenesim devido a um grupo de estudantes possuídos.

