Diário da Monstra – Festival de Animação de Lisboa: Dia 6

(Fotos: Divulgação)

Sábado, aparecem agora as sessões esgotadas, cheias de cinéfilos e curiosos, mas também daqueles para quem os festivais de cinema (e outras produções culturais) são um acessório a consumir de forma conspícua, parte de uma imagem de sofisticação urbana massificada e mercantilizada pelos media. Mas, estes eventos vivem do público e ainda bem que o há e que há também essa conotação positiva associada a eles.

A primeira sessão foi finalmente a Competição Portugueses, dedicada à produção nacional de animação do ano passado. Dos vários que se candidataram, onze foram seleccionados para serem apresentados nesta secção, com estilos, técnicas e tons muito distintos. Infelizmente o fatalismo miserabilista que parece caracterizar a producção fílmica portuguesa também se nota aqui, bem como algum pretensiosismo elitista, ainda assim ressalvam-se, para os mais novos, “Noall & Curios in TorchDog”, “Bruxas” e “Ginjas”, o negro “Os Milionários”, cujo único ponto negativo era a banda sonora da autoria do próprio realizador, o simples “Quem é este chapeu?”, o aberto “Independência de Espírito” e o poético “Sem Querer”, sem dúvida o melhor filme da selecção.

Depois disso, dirigi-me ao desastre que foi a sessão da noite no Alvalade. A sessão, esgotada, estava marcada para as 21h45, tendo sido substituída, como já anunciado ainda antes do início do festival, por uma das sessões de estreia do novo filme dos Estúdios Ghibli, que já nos trouxe clássicos como “Princesa Mononoke”, “A Viagem de Chihiro” e “O Castelo Andante”: “Arriety”. O filme começou a horas, mas sem imagem: ouvia-se o som e liam-se as legendas, mas imagem, nem vê-la. Ao princípio parecia normal, mas com o prolongar da situação começou a perceber-se que algo estava errado e resolveram parar o filme. Primeira pausa de quinze minutos para tentar corrigir a situação. Sim, primeira. Porque houve mais. Nesta primeira pausa chegam algumas pessoas atrasadas que, ao contrário do que tinha sido feito em todo o festival, resolvem reclamar para elas os lugares que estavam marcados nos bilhetes. Curiosamente e sem que ninguém tivesse sido avisado, a Gerência do Alvalade resolveu que Sábado deveria implementar esta regra, o que nos foi explicado por um arrumador e o que levou a um jogo de cadeiras musicais, sem música e sem sentido. De novo sentados, recomeça a sessão. Desta, com as legendas cortadas. Não sei bem como, mas a sala de projecção não tem visão para a sala de cinema, o que quer dizer que têm de ser avisados desde um telefone que existe dentro da sala, perto da saída. Estava colocada de lado deste telefone uma funcionária do cinema que, ao perceber que as legendas estão cortadas, avisa a sala de projecção: “As legendas estão cortadas. Não, cortadas. O som está bom e a imagem também, mas não dá para ler as legendas. Vão continuar mesmo assim?”. A confusão era óbvia e a falta de respeito por quem pagou para ver a sessão também.
 
Resolvem parar uma segunda vez. O público começa a rir-se. Há uma sucessão de pessoas que vão entrando e saíndo da sala, uma delas da organização da Monstra que não dá qualquer explicação, apenas fala ao telemóvel. Mais quinze minutos de espera. Recomeça de novo a sessão. Continua com as legendas cortadas. O público começa a ficar irrequieto, mas ainda se riem da situação. Param uma nova vez. A terceira. Desta, meio obrigada, lá conseguem que a pessoa responsável da Monstra fale com o público.
 
Alguém começa a pedir que compensem o público com pipocas. Desta feita a espera foi maior: meia-hora. O estrangeiro que estava sentado ao meu lado comentava que o público português era muito paciente, surpreendido, à sua amiga portuguesa. Alguns testes vão aparecendo no ecrã. Agora vê-se o Painel de Controlo do Windows. Uma mão tapa a imagem. “Tecnologia avançada!”, comenta alguém. Todos rimos. Finalmente aparece uma janela do VLC com o filme (disponível de borla e, pelos vistos, um player em que se pode confiar até no cinema!). Recomeça o filme, sem som. “Está sem som”, diz a pobre empregada desesperada ao telefone. As pessoas riem-se e começam a fazer a sua própria banda sonora por cima do filme. Finalmente ligam o som e recomeça o filme. Uma hora. Uma hora sem desculpas. Como é possível que não se teste antes a exibição todos os filmes? Durante toda a semana estive a ir ao Alvalade e toda a semana esteve sempre alguém antes da sessão a testar o sistema das legendas, como é possível um desastre destes? Tanto a Monstra como o Alvalade sofrem com este tipo de coisas desnecessárias. Uma vergonha que não deu origem a algo pior devido à vontade e paciência do público. Deviam ter tido o livro de reclamações cheio e ter de ter devolvido o dinheiro às pessoas. Esperemos que, pelo menos, tenham aprendido algo.
 
João Miranda 

Últimas