A greve afetou a Monstra, as pressões da vida real a sobreporem-se à alienação do cinema, quer por razões ideológicas, por logística (pela falta de transportes) ou pelo oportunismo de aproveitar um dia de sol. Apesar de um menor número de pessoas, a Monstra continuou.
Na Sessão 04 da Competição de Estudantes muitos foram os filmes que se destacaram, com pequenas histórias como “The man who was afraid of falling”, do Reino Unido, onde a queda de pequenos objetos domésticos aumenta o medo de cair de um senhor mais velho, que vai fugindo até chegar à conclusão que não há mais por onde fugir, ou “Le Roi des Echos”, da França, baseado numa lenda e construído unicamente com tipografia, ou “Eshe Raz! / One More Time!” onde a loucura e a nostalgia de um dia da infância corre à nossa volta como um disco no giradiscos; outros mais loucos, como o coreano “Doves Do Not Fly”, onde um pombo que não voa conhece uma galinha cujo sonho é ser frita, ou “Flamingo Pride” (na imagem acima), onde um flamingo heterosexual tem dificuldade em que o vejam assim; e outros mais profundos, como “No Adults” onde crescer e abandonar os bonecos amigos de infância se revela difícil ou “Bon Voyage”, uma das melhores visões do problema da migração africana para o “Eldorado” europeu, melhor do que muitos filmes que já tentaram abordar o tema antes, explorando a alienação do meio e confrontando o espectador com o seu riso e o constrangimento que o segue. Brilhante.
Na sessão seguinte, a 04 da Competição Internacional, apenas um dos filmes deixou marca negativa: “Body Menory”, um daqueles filmes experimentais que nos deixa primeiro surpreendidos, depois baralhados e finalmente aborrecidos. Dos outros, dois portugueses “Ginjas” e “Os Olhos do Farol” mostraram que a produção nacional é possível e tem qualidade, mas foi “Luminaris”, um filme argentino, que brilhou (neste caso, literalmente).
A última sessão enquadra-se na série de quatro organizada por Ron Diamond, que já trabalha em animação há mais de 20 anos, a realizar, produzir e ensinar, e também parte do Júri deste festival, dedicada aos Óscares, neste caso, aos filmes nomeados, mas que não ganharam. Apresentada pelo próprio Ron Diamond, este, numa apresentação informal ao público, referiu as 3 razões pelas quais um filme pode ser nomeado, mas não ganhar um prémio: faltar “algo”, a transformação da personagem não está completa ou algo na história não é provocado pela personagem; o nem ambicioná-lo, um filme desprentensioso, que não procura ganhar prémios; ou o timing, não da narrativa ou da animação, mas o azar de sair quando um filme, não necessariamente melhor, mas mais “espalhafatoso”, com um maior “wow fator”. Os filmes desta sessão todos têm a qualidade esperada de filmes nomeados, mas, ainda assim, há sempre os que impressionam mais do que outros, neste caso: o hilariante “The Cat Came Back”, o sensível “When The Day Breaks”, o reflexivo “Das Rad”, o musical “The Monk and the Fish” e o viciante “Blackfly”. Depois da apresentação de Ron Diamond, o jogo foi tentar compreender porque não ganharam os prémios os filmes, para alguns foi mais óbvio do que para outros, mas não para todos.
João Miranda

