Ao terceiro dia da Monstra, a adesão do público é agora bem visível, principalmente nas sessões da noite, onde as salas, apesar de não cheias, se apresentam bem compostas. Outro dia de competições, este teve início com a Sessão 03 da Competição de Estudantes. Dos onze filmes apresentados, destacam-se a doçura de “A Life Well-Seasoned”, do Reino Unido, onde vemos como um homem lida com a dor de perder a sua mulher, o humor negro de “Zing”, da Alemanha, onde a Morte é apresentada quase como um funcionário público, isto até a sua rotina ser interrompida por uma criança que procura o seu gato, a crítica de “De Roni”, da Suiça, da procura de uma imagem de sofisticação urbana construída e nem sempre autêntica, o esoterismo bailado de “Frictions”, da França, onde a procura de equilíbrio espiritual se manifesta física sobre o corpo de quem dança, e a cinematografia de “Omerta”, uma história de gangsters construída na semiótica já bem estabelecida nos filmes deste género.
Na segunda sessão do dia, a 03 da Competição Internacional, apareceram alguns dos filmes de animação que, apesar das limitações do meio e do tempo, conseguiram explorar alguns dos temas mais complexos da natureza humana: em “Jeska/Lure”, da Croácia, um pescador tem de lidar com os seus desejos e a insatisfação humana, em “Danny Boy”, uma co-produção polaci-suíça, é com a diferença, o desejo e a pressão social para pertencer, em “Where Dogs Die”, da França, a animação, feita de areia, lembra-nos da nossa transitoriedade e da dos que nos rodeiam, em “R-XYZ”, português, do difícil equilíbrio entre a sensibilidade e a razão, e em “Romance” dos vários pontos de vista de uma relação e da influência mediática na construção das nossas realidades pessoais. No meio desta já bastante boa sessão, “Preferably Blue”, todo em verso, conta a história da rivalidade entre o Coelho da Páscoa e o Pai Natal, tudo em tons politicamente muito incorrectos e muito negros, como deve de ser.
“A Life Well-Seasoned”
De volta ao São Jorge para a última sessão do dia, a 02 da Competição Internacional, mais uma vez se mostra que nem sempre são os filmes mais escuros e estranhos que conseguem transmitir a escuridão que se esconde na natureza humana e, quando o tentam, muitas vezes acabam por perder o público. Se já ontem tinha acontecido com “Maska”, baseado num contro de Stanislaw Lem, desta foi “Underlife”, um filme polaco que se diz baseado num conto de embalar e que, segundo a sinopse que está no site da Monstra: “usa metáforas para mostrar a influência destrutiva que os antepassados têm nos homens, questionando se alguma vez no poderemos libertar dessa influência. Este filme levanta a questão universal sobre as condicionantes subconscientes que definem e condicionam as nossas vidas.” Ou há uma grande diferença cultural entre Portugal e a Polónia que nos impede de compreendermos o filme ou as metáforas e símbolos utilizados só fazem sentido para quem o escreveu. Aparte esse filme, os portugueses continuam a destacar-se com o didático “Foxy e Meg” de André Letria, o triste “E se…” de Sandra Santos e o cínico “O homem da cabeça de papelão” de Luís de Matta Almeida e Pedro Lino. Dos demais, entre as explorações geométricas de “Modern nº2”, do Japão, o humor nostálgico de “Sunday”, do Canadá, e o agridoce “Soul Ornament”, destaca-se “Vicenta” (na imagem do topo desta notícia), de Espanha, que teve direito a duas vagas de aplausos e várias de riso. Ainda não temos indicações de qual o filme que irá à frente na escolha do público, mas parece-me que, baseado na sua resposta na sala, “Vicenta” tem boas hipóteses de aparecer pelo menos no Top. Quanto ao Júri, esse tem um trabalho complicado pela frente…
João Miranda

