Diário da Monstra – Festival de Animação de Lisboa: Dia 1

(Fotos: Divulgação)

Começou ontem a Monstra, o festival dedicado exclusivamente à animação, este ano constituído quase exclusivamente por curtas. Com a competição a começar só hoje, no segundo dia, ontem o dia viu a Monstrinha, com programas dedicados a crianças, e a festa de abertura no São Jorge, com filmes da Alemanha, o o país convidado este ano, e o melhor do que se faz em algumas escolas de animação no Alvalade.

Na primeira sessão – Best of Bristol – pode ver-se o resultado final do curso de animação da Universidade de Bristol, com técnicas e resultados muito diferentes, desde animações “clássicas”, CGI, recortes, stopmotion, com alguns a ficarem-se por piadas simples, como “Smokey the Monkey”, “Doom Farm” e “When I Grow Up…”, outros por exploração da animação em si, “Circle”, e outros a acabarem por brincar com a ideia dificuldade de concluir um projetoacadémico de animação e com a vontade de fugir disso, “Learning Maya”. É um conjunto díspar de curtas que, pelo seu tom e duração, acaba por ser bastante leve e permitir sair dele bem disposto. Repete no Alvalade, sexta-feira às 17h.

A segunda sessão – Best of Animamundi – é uma das sessões que veio substituir a retrospetiva de Isao Takahata, que teve de ser cancelada por motivos alheios à direção da Monstra. Animamundi é um festival de animação brasileiro e aqui temos possibilidade de ver alguma da animação que sai deste país. Como seria de esperar, a diferença cultural entre a primeira e a segunda sessões é marcada: se a primeira se caracterizava mais pela exploração das técnicas e pelos temas mais ligeiros, a segunda é mais guiada pelas ideias e pela cultura brasileira. Os temas são mais “sérios”, mais pesados. A criança que estava sentada na fila atrás da minha bem se queixava ao pai de que os filmes eram tristes, mas aguentou-se até ao final, depois de uma história anti-amorosa e bastante deprimente “O céu no andar de baixo”, um naufrágio “Tempestade”, um homicídio “Sambatown”, uma poltrona serialkiller “Propriedades de uma poltrona”, uma criança ostracizada por ser diferente (claro que sem fim feliz) “Menina da chuva”, três anjos explorados por pessoas de forma incompreensível “Os anjos do meio da praça”, uma piada curta (que alívio!) “Bomtempo” e uma ideia curiosa, mas bastante assustadora para a dita criança de usar o próprio ato de desenhar e pintar para simular as tentativas de um pássaro fugir de uma gaiola. Desta sessão não saíram sorrisos, mas isso não impede que existissem algumas ideias curiosas e uma animação exemplar.
 
Sambatown 

A última sessão do dia – Best of Animadok – traz-nos filmes alemães que passaram pelo festival com esse nome que tem lugar em Leipzig, dedicado ao documentário e à animação. Novamente os estilos e as técnicas são diferentes, mas também as diferenças culturais são aqui visíveis: dois dos filmes são construídos sobre a interpretação de crianças de temas como o aquecimento global “Froschwetter” e o futuro em “Zukunft”, outros refletem sobre acontecimentos no passado: o austro-fascismo numa personagem ridícula e perigosamente iludida em “Heldenkanzler”, a guerra do Iraque reconstruída desde imagens já icónicas com bonecos infantis conhecidos em ”Infinite Justice”, Chernobyl na primeira pessoa por quem o viveu em “Leonids Geschichte” e um visitar quase-surreal da Alemanha pré-unificada do outro lado do muro em cenas oníricas e uma narrativa poética que usam fragmentos de uma cultura que entretanto desapareceu em “Warmes Wasser Aus der Wand”.

Um primeiro dia que dá o tom ao resto do festival, com o foco essencialmente nas técnicas e nas diferenças culturais dos países que participam, com uma variedade que o caracteriza e enriquece. Pena é que a adesão do público não tenha sido maior.
 
João Miranda 

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