À conversa com Sebastian Meise, o realizador do poderoso «Still Life»

(Fotos: Divulgação)

O cinema austríaco recente tem dedicado alguma atenção aos casos de pedofilia que ocorrem localmente, mas também em todo o mundo. Talvez uma das obras mais mediáticas sobre o assunto, até porque passou no Festival de Cannes, foi «Michael» – que foi exibido recentemente no IndieLisboa e chegará brevemente às nossas salas. 

Outra dessas obras é «Stilleben» (Still Life), um poderoso filme que aborda a pedofilia e o incesto, seguindo uma abordagem pouco convencional no cinema já que se foca num homem que se mantém no reino da fantasia e não passa aos atos, sofrendo com isso e com a sensação de culpa associada aos seus pensamentos.

Para Sebastian Meise, que aceitou responder algumas perguntas do c7nema, a ideia para a sua obra «história nasceu num projeto de um hospital de Berlim, onde as pessoas com essa inclinação têm a hipótese de fazer terapia de maneira a evitarem a pratica de um crime.»

Esse programa de prevenção do hospital germânico foi um sucesso. Na primeira semana,«todas as vagas para a terapia estavam ocupadas» por pessoas que nunca praticaram o crime, mas que vivem com as suas fantasias. Associado a isto, na esfera do interesse de Meise estava também a sua perceção e a “descoberta“ da separação entre quem fantasia, mas não age, e quem fantasia e não vê problemas nisso. «Até conhecer esse hospital nunca tinha realmente pensado na distinção entre os que têm essa inclinação e os que realmente praticam o crime»

Para além disso, ao cineasta interessou explorar «esta figura paternal que sente a culpa pela inclinação mas não consegue parar de fantasiar com a filha».

Uma familia abalada

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O facto de  «Still Life» se passar no seio de uma família dá-nos a oportunidade de analisar com detalhe a situação. Na essência, o filme parte da descoberta de um homem que o seu pai paga a prostitutas para que elas se passem pela sua irmã.  A forma de descoberta é uma carta interceptada a uma destas prostitutas. 

A partir daqui começa uma grande revelação em termos familiares, sendo particularmente pesada a forma como filha, agora adulta, encara a situação, percebendo finalmente porque o pai nunca foi muito amigável com ela. «Na realidade a obsessão sexual [e a sua resistência] levaram a que ele se afastasse da filha.  Ela agora percebe, de certa forma, porque ele sempre foi pouco paternal».

Durante pouco mais de 80 minutos assistimos a uma tensão arrepiante. Por um lado procura-se sinais no passado, por outro há a total  incredulidade por parte da mãe. Finalmente, existe a dúvida do que o patriarca – agora exposto – possa fazer. Toda esta repressão e ambiente são completamente asfixiantes, e envolveram uma longa preparação, para criar momentos verdadeiramente «plausíveis e em que todos ficam de certa maneira sem palavras»

«Várias semanas antes de começar a filmar ensaiamos a criação da família. Todas as cenas que criámos e improvisámos foram executadas antes das filmagens. Nós queríamos acompanhar como esta família vivia e lidava antes do colapso, como se relacionavam, como era a dinamica entre todos e como a descoberta iria afectar a vida de todos. Foram nesses ensaios que criámos a estrutura familiar e desenvolvemos o o argumento da história.»

Depois desse guião estar escrito, não houve hipótese de mudanças durante as filmagens, especialmente nos diálogos. «Muitas vezes apagámos os diálogos porque os atores não se identificavam com eles. Sentimos que algumas dessas falas eram demasiado inanimadas em informação, e retirámos-las.».

A verdade é que este silêncio torna ainda mais claustrofóbico esta obra que é, sem dúvida, um dos pesos pesados da programação do IndieLisboa.

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