Iniciado no passado dia 25 de novembro, o Festival de Turim (TFF), na sua 40ª edição, tem entregue, sempre à hora de almoço, um menu cinéfilo pontuado pelo género western e onde o ator Sterling Hayden tem os holofotes apontados a si.
Figura marcante no cinema made in Hollywood, não apenas pela “desgaça” do “comunismo” a que foi conectado no período macartista, Hayden entregou o corpo e alma em vários westerns, como “The Romance of Rosy Ridge” (1947), exibido em Turim.
Com o final da Guerra de Secessão como ponto de partida, “The Romance of Rosy Ridge” captura um pós-guerra ainda repleto de atritos entre o Norte e Sul através da história da família MacBean (pai Thomas Mitchell, mãe Selena Royle, irmã Janet Leigh e irmão Dean Stockwell), que anseiam o regresso do filho. Mas enquanto as novidades sobre Ben são escassas, um estranho, Van Johnson (Hayden), chega ao local disposto a ajudar a família nas próximas colheitas.
Com uma forte mensagem de paz nas entrelinhas e um acirrado discurso contra o ódio, o argumento adaptado por Lester Cole (que se tornaria um must Hollywood) do romance de MacKinlay Kantor, embarca por vias do romantismo histórico na construção de uma relação oprimida pela proveniência dos apaixonados: ele do norte, ela do sul, num ambiente onde as tensões entre as fações aumentam com o acumular de incêndios sem explicação em celeiros da região.
Embora mais lembrado como o filme-estréia de Leigh, “The Romance of Rosy Ridge” tem um charme e uma inocência romântica que deixou marca no currículo de Hayden.
Consideravelmente diferente é “Shotgun” (1955), também exibido no certame, onde Hayden é um xerife que parte numa vendetta para capturar o gangue que matou o seu colega da lei.

Lesley Selander assina um faroeste implacável com tiques de série B, com índios (apaches), cascavéis venenosas e outros perigos a surgirem no deserto, quer a Clay Hardin (Hayden), quer a Thompson (Guy Prescott), o líder do grupo de bandidos. E pelo meio ainda temos Abby, interpretada por Yvonne De Carlo, que às tantas leva duas galhetas do herói [uma cena irrepetível nos dias que correm), além de Carleton (Zachary Scott), um caçador de recompensas charmoso.
Mas o mais interessante de todos os filmes exibidos em Turim, e sem dúvida o mais excêntrico, foi “Terror in a Texas Town”, filme de culto de 1958 de Joseph H. Lewis que opõe um pistoleiro vestido de negro, Johnny Crale (Nedrick Young), e um sueco habituado a trabalhar em baleeiros, George (Sterling Hayden). No centro de tudo estão as terras do pai de George, onde existe petróleo, o que desperta a atenção de Ed McNeil (Sebastian Cabot), proprietário de um bar e hotel em Prairie City que quer açambarcar todas as terras que têm o ouro negro.

Logo na primeira cena do filme [que também é a última], em que Sterling Hayden caminha com um arpão na mão, acompanhado pelas pessoas da cidade, enquanto procura por Crale, sabemos que estamos perante uma estirpe diferente de western, daquelas que qualquer justiceiro dos anos 1970 (Eastwood, Bronson, etc) à era de John Wick se iria deleitar.

Além destes filmes protagonizados por Hayden, o Festival de Turim exibiu ainda outras relíquias, como o bizarro e totalmente desajustado para a modernidade “Terror in a Tiny Town” (1938), um western musical cujo elenco é composto completamente por pessoas com nanismo.
“Four Faces West” (1948), “Coroner Creek” (1948) e “Seven Ways from Sundown” (1960) fizeram também parte do menu.

