John McTiernan: “O mais perto que a narrativa cinematográfica esteve de um Beethoven foi Stanley Kubrick”

(Fotos: Divulgação)

Envolvido com o projeto “Tau Ceti Four“, filme de ficção científica com Uma Thurman e Travis Fimmel no elenco, depois de um hiato de 19 anos sem lançar longas-metragens, o cineasta nova-iorquino que mudou a forma de se filmar ação na década de 1980, John McTiernan, aproveitou a palestra que deu, na tarde de domingo, na 37ª edição Mar Del Plata, para tirar a máscara da suposta “excelência estética” da indústria que o rejeitou. O colóquio veio antes de uma projeção comentada de “Die Hard” (1988), filme que fez dele uma divindade no género, algo que já esboçara alcançar ao conduzir Arnold Schwarzenegger em “Predator” (1987), que o evento argentino vai exibir esta segunda-feira. O festival não trouxe “The Last Action Hero” (1993) e o malfadado remake de “Rollerball” (2002), dois fracassos responsáveis pela rejeição que o realizador sofreu. Uma rejeição ampliada por um processo judicial por perjúrio num depoimento ao FBI.

Ainda não houve, no cinema, uma revolução formal como se passou na pintura ou na música. O mais perto que a narrativa cinematográfica esteve de um Beethoven foi Stanley Kubrick“, disse o realizador de 71 anos, ao explicar o seu desdém por filmes de super-heróis. “Até meados dos anos 1990, os estúdios eram comandados por executivos que conheciam cinema, ou que, pelo menos, viam filmes, até que essas empresas foram compradas por grandes conglormerados comerciais cuja meta é dar lucros, amortizando perdas. Não há mais espaço, na lógica deles, para se falar de pessoas comuns, só de quem tem poder, um super-herói, um ser do espaço, um mágico. É um movimento político que está diante de nós“.

Mediador da palestra, o diretor artístico de Mar Del Plata, Pablo Conde, não falou dos fracassos do cineasta e evitou relembrar do imbróglio judicial que quase levou McTiernan à cadeia. E as duas únicas perguntas da plateia argentina que o realizador teve a chance de responder fugiam de polémicas. Mas as falas dele são ásperas por natureza. “Antes de ‘Die Hard’, os thrillers eram feitos de modo que os cineastas confiavam as cenas de ação aos seus realizadores de segunda unidade, profissionais que, em sua maioria, eram duplos que se aleijaram e não podiam mais exercer a sua função. O que eu fiz foi dirigir, eu mesmo, essas cenas de ação, com a certeza de que a câmara pode ser uma narradora ativa“, disse McTiernan, citando “Day for Night” (1973), de François Truffaut, como uma das suas inspirações.

Ex-estudante de Antropologia, McTiernan passou da reflexão etnográfica a Hollywood pelo interesse de contar historias. “O meu estilo é copiado dos italianos, sobretudo de Bertolucci. Gosto de De Sica também, ainda que não acredite que ninguém chegue a ser como De Sica. Vi muito cinema espanhol do passado, descobrindo diretores cheios de ambição artística, sem serem pedantes. Era o caso de Buñuel, com duas ideias loucas, mas sempre divertidas. O que procurei levar deles, de Truffaut, é a ideia de uma câmara excitada, capaz de contar histórias de pessoas comuns de modo vivo. Como se fosse um filme de género feito por Bertolucci“, diz o realizador, que afirma ter cinco projetos para filmar. “Se me derem recursos, tenho vontade e força para fazê-los“.

O Festival de Mar Del Plata prossegue até o dia 13 de novembro.

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