Sala cheia, risos fartos, muita emoção e algumas lágrimas acompanharam a exibição do documentário “Cesária Évora” na sua estreia nacional no IndieLisboa, em abril passado. Já com passagem pelo SXSW nos EUA, onde teve a sua estreia mundial, o público português rendeu-se “à diva dos pés descalços”, à “mulher e artista… tão sedutora como complexa”, uma figura que elevou a “Morna” a música nacional e se tornou um ícone internacional, levando assim a sua Cabo-Verde para todo o lado.
Numa exibição que contou com a presença da realizadora Ana Sofia Fonseca, jornalista que em 2018 se estreou nos documentários com “Setembro a Vida Inteira” e que tem dedicado especial atenção ao longo da carreira a histórias sobre direitos das mulheres, colonialismo e questões raciais, a impressão com que se fica é a de se estar perante um trabalho o mais fiél possível à realidade da vida de Cesária. Para a realizadora, “um dos grandes desafios deste filme foi encontrar arquivos que nos mostrassem a Cesária como ela é“. Perante o tamanho de uma tarefa assim, a solução foi mergulhar no universo pessoal da cantora, um trabalho de pesquisa que acabou por revelar uma Cesária intemporal: “essa pesquisa de arquivos não foi só um desafio, mas uma aventura (…) e ajuda-nos a estar juntos da Cesária. (…) Estamos habituados a personagens algo camaleónicas, que a certo momento da vida enfrentam uma mudança. A Cesária nunca muda, nem quando à volta dela tudo muda drasticamente (…) A sua história é realmente inspiradora.” E se foi realmente uma mulher que carregou no corpo a história do seu tempo, a verdade é que nunca deixou de abrir as portas a um futuro diferente, mais próximo do nosso presente: “Ela nasceu com o preconceito colado à pele: mulher, negra, pobre, colonizada. A vida encarregou-se de lhe dar outro destino. Tinha mais de cinquenta anos e não tinha a beleza própria das capas de revista quando o sucesso lhe bateu à porta. O preconceito vem sempre do olhar dos outros, nunca do olhar dela. E estamos a falar de uma mulher que punha a liberdade acima de tudo. E que era livre na vida e até na morte. Uma mulher que não conhecia expressões agora em voga, como empoderamento feminino. A sua forma de vida era contra os preconceitos e isto tornou-a singular e inspiradora.”
Além do filme-homenagem
“Não queria que este filme dissesse apenas que a Cesária é maravilhosa”, explicou Ana Sofia Fonseca, que no seu documentário toca em alguns pontos sensíveis da vida da cantora, como o consumo excessivo de álcool (que a ajudou a ultrapassar a timidez de subir ao palco), ou ainda de problemas do foro psíquico como a depressão, que a obrigavam a fechar-se entre quatro paredes e motivaram o adiamento de várias tournées. Numa figura maior que a vida, encontramos afinal um retrato do ser humano. Nas palavras da realizadora, “a Cesária Évora é incrível porque nela cabe toda a complexidade da natureza e condição humana.” E como pano de fundo ainda e sempre a ligação à sua terra natal: “Para entender a Cesária é preciso entender São Vicente. E São Vicente não era apenas o chão que pisava, mas o ar que respirava. É preciso entender o contexto sociopolítico em que ela cresceu. E é preciso falar de colonialismo. São todas as suas fragilidades e fortalezas que a aproximam de nós. Uma mulher de pés no chão, e é isso que a torna tão singular”, concluiu Ana Sofia Fonseca.

A origem do projeto
“Este projeto começou com uma colher de pau no ar”, disse a realizadora ao público. “Estava em casa, em São Vicente, a cozinhar um risoto quando um amigo me disse: ‘Sofia, para o ano tens de vir ao carnaval porque a escola de samba tropical tem como tema uma homenagem a Cesária Évora’. Lembro-me que fiquei com a colher de pau no ar e pensei: ‘Bem, não posso adiar mais este projeto. (…) Mas se calhar [o projeto] até começou antes. Dias depois do funeral da Cesária. Lembro-me de estar à porta de casa e de ver as pessoas a passar. Quanta tristeza! Quanta orfandade naqueles olhares!” E foi assim que o projecto foi ganhando forma no pensamento da realizadora:” Aí pensei que alguém tinha de contar a história desta mulher (…) Ou talvez até tenha começado antes. Quando conheci o Djoy e ele fez-me mergulhar em São Vicente. A verdade é que os começos são a soma de vários acontecimentos e uma série de pessoas com as quais nos vamos cruzando”.
Forma e conteúdo
“Procurámos momentos e características que fossem reveladoras do que a Cesária Évora foi. Que mulher foi esta?”, interroga-se ainda Ana Sofia Fonseca, uma realizadora que em “Cesária Évora” foge na sua totalidade ao registo das “cabeças falantes” que frequentemente invade os ecrãs nos documentários biográficos nacionais. Ao invés, a realizadora construiu o seu filme com a preciosa ajuda de Cláudia Rita Oliveira na montagem, recorrendo a material de arquivo que cruza com as as vozes dos muitos que fizeram parte da vida da cantora, como a sua neta Janette Évora, ou o antigo manager e amigo próximo da artista, José da Silva.
E além da brilhante cantora que foi e do ser humano permanentemente disposto a ajudar o próximo (chegava a trazer 6 ou 7 malas cheias de prendas, quando regressava das digressões), o maior triunfo do documentário de Ana Sofia Fonseca é a estonteante capacidade de mostrar o lado mais bem-disposto de Cesária Évora, um humor que revela toda uma atitude perante a vida e que em certos momentos conseguiu levar a Culturgest a explodir à gargalhada (a cena em que partilha o ecrã com o cubano Compay Segundo é mesmo um tesouro). Não se pode pedir muito mais.

