Gerações da Berlinale abre ao som do hip-hop

(Fotos: Divulgação)

No coração de Paris, uma prestigiosa escola secundária faz uma aposta audaciosa: integrar estudantes de bairros dos subúrbios e fazê-los quebrar o círculo do fracasso escolar através do hip-hop.

“Rookies” (Allons Enfants), o novo filme da dupla Thierry Demaizière e Alban Teurlai, acompanha durante um ano os resultados do projeto, seguido em de perto alunos e professores numa jornada com sucessos, mas também fracassos e desilusões.

Falamos com a dupla de documentaristas que depois de abordarem em filmes anteriores temas tão distintos como Lourdes, a famosa localidade gaulesa conhecida pelas aparições da Virgem Maria a Bernadette Soubirous, ou o ator pornográfico Rocco Siffredi, entram agora no coração de um projeto educacional de forte cariz político e social no caminho à integração.

Como chegaram a este projeto e como foi a colaboração com a Elsa Le Petreuc, que teve a ideia?

Almoçamos com a Elsa, que é jornalista. Ela já tinha escrito umas linhas sobre o projeto educativo e a instituição, mas nunca tinha havido uma reportagem sobre o tema. Inicialmente pensamos em fazer o documentário para a televisão, mas quando começámos a falar com os alunos vimos que tínhamos um filme para cinema.

Qual o maior desafio e como foi a preparação para essa transposição para uma linguagem mais cinematográfica capaz de chegar a um festival como Berlim?

Estamos muito felizes que o filme chegue a Berlim na secção Gerações, até porque é isso que o filme faz: um retrato de uma geração. Passamos um ano naquela escola, nas aulas, onde muitas vezes os alunos se aborreciam, mas outras vezes estavam felizes e dançavam. E conseguimos filmar coisas muito raras de se assistir em França, como as reuniões da turma, onde professores e alunos se defrontam e conversam. E tudo antes da pandemia, por isso não vemos ninguém com máscaras.

E estudaram outros filmes, principalmente os ligados a dança, como o “Fama”, por exemplo, para replicar algo como por exemplo as “batalhas”?

Tivemos sempre a cabeça um documentário do David Lachapelle chamado “Rize”. Era uma história de bairros que se confrontam através da dança. Não tentamos imitar, mas foi certamente uma inspiração.

E o que pensam do hip-hop, que está no coração do filme?

Já tínhamos abordado essa cultura numa série que fizemos para a Netflix chamada “Movo”. Uma das coisas curiosas é a linguagem desta geração. Não quero dizer que amamos o hip-hop, mas o que é genial neste caso é que os alunos podem viver essa cultura que adoram e igualmente ter uma educação escolar. Terem um local que junta pessoas de várias origens e classes e encontram na dança algo que os une.

Mas há que dizer que a estética da cultura hip-hop é formidável e envolve muito respeito.

Acham que o facto da câmara estar ali condicionava a forma como os alunos que vemos em cena agiam?

Temos de ver que são pessoas de 16 ou 17 anos. Nós, os mais velhos, não estamos habituados a câmaras em todo o lado, eles sim. Nasceram com os smartphones, redes sociais e exposição. Estão habituados a elas, é algo natural já publicarem-se a si nas redes sociais.

Acompanhando estes jovens durante um ano e com participação da escola e professores, não existia propriamente um guião, ou seja, esse guião foi todo ele feito na montagem?

Nos documentários normalmente é assim, mas havia no nosso caso um arco narrativo, que passava pela competição no campeonato. Mas quando tens 150 horas de filmagens e tens de reduzir a um filme com menos de duas horas, naturalmente que muito é “escrito” na montagem.

E que pensam do valor deste projeto escolar e educativo de trazer miúdos dos subúrbios, muitos deles problemáticos, para o coração de Paris e terem aulas com alunos de outros estratos sociais? O vosso filme é claramente social e político?

É um filme sobre a mistura de classes sociais. Em França e noutros países há muitas vezes uma guetização dessas classes, e aqui faz-se o oposto. Misturam-se rapazes e raparigas de bairros sociais e os que vivem no centro de Paris. Sim, é um projeto político de integração. Ao juntarem pessoas de diversas origens resolve-se uma questão identitária, que curiosamente está no centro de muitos debates que assistimos na campanha eleitoral que decorre em França.

E depois de filmes sobre hip-hop, o Roco Siffredi e Lourdes, o que se segue e o que vos move?

O que nos move é a diversidade temática. Temos um novo projeto a fase de escrita, logo se vê para que meio será, ou seja, cinema ou TV. Mas claro que há tópicos melhores para um meio que o outro.

E ponderam passar um dia para a ficção?

Não. Somos documentaristas e este é um género muito digno e bom.

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