Recentemente, “Shadow and Bone” passou um tanto ou quanto despercebida no catálogo Netflix, mas para os fãs de fantasia chegou de mansinho e conseguiu o feito de colmatar a falha que “The Witcher” não conquistou: distraiu-nos das saudades de “Game of Thrones”.
Na verdade, devemos usar apenas a questão das saudades e evitar comparar todos os projetos desta tipologia ao feito da adaptação HBO, que elevou a fasquia do género – apesar das liberdades e erros adaptativos – por culpa da equipa responsável mas também do autor [se tivermos em conta que o fim da série não aconteceu por escrito e esse foi um golpe fatal naquela que podia ter sido a melhor série de fantasia de sempre].
Qualquer aventura de fantasia, com vários mundos, espécies, poderes, etc. nem sempre são fáceis de acompanhar. Há que ter em conta a história, as genealogias e tantos outros elementos que muitas vezes são tão intricados que são impossíveis de contar nas adaptações cinematográficas ou televisivas pois perdem-se na condensação forçada de timings impostos e pré-estabelecidos para o formato filme ou série.

“The Wheel of Time” segue a história de Moiraine, membro da Aes Sedai, uma poderosa organização de mulheres que usam magia para controlar e dominar o mal. Esta mulher orienta um grupo de quatro jovens numa viagem difícil, acreditando que um deles será a reencarnação do Dragão, um indivíduo poderoso, profetizado para salvar o mundo ou destruí-lo.
Na primeira temporada de “The Wheel of Time” há uma correria constante, ficando claramente explicito que a história de The Eye of the World não é possível apresentar em apenas oito episódios com cerca de uma hora cada. A história principal não consegue criar um impulso real e as narrativas dentro desta são apresentadas também sem grande profundidade. É uma aventura negra e sangrenta, mas ao mesmo tempo leve e extravagante. Está presa num complicado limbo situado entre o violento e o sensível.
O elenco é bastante interessante. A protagonista é Rosamund Pike, como Moraine. Daniel Henney é al’Lan Mandragoran, o protetor da Aes Sedar, Josha Stradowski interpreta Rand al’Thor, Marcus Rutherford é Perrin Aybare, Zoë Robins encarna Nynaeve al’Meara e Barney Harris é Mat Cauthon – este são os quatro potenciais Dragões. Depois existe Madeleine Madden como Egwene al’Vere, Michael McElhatton é Tam al’Thor e Álvaro Morte como Logain Ablar. Fazem ainda parte do elenco Maria Doyle Kennedy, Priyanka Bose, Daryl McCormack, Sophie Okonedo, Clare Perkins e Kae Alexander.

Um elenco bastante competente e heterogéneo no que a etnias diz respeito, mas nem sempre respeitado pela correria argumentativa. Há muito para contar em pouco tempo. A série não explora as personagens o suficiente. Não há tempo para contar jornadas pessoais de forma correta. Mudamos constante e rapidamente de “a” para “b”. No primeiro episódio somos bombardeados por personagens e pelas suas histórias. Tudo num ritmo desajeitado que tenta inserir o máximo de contexto numa cronologia limitada. Falamos de personagens complexas, com poderes místicos, origens tortuosas e intrincadas indefinições entre o bem e o mal, como qualquer narração de fantasia que se preze.
Os primeiros livros da série “The Wheel of Time” foram bastante acusados de sexismo e homofobia, mas Rafe Judkins (criador da série) contornou bem o assunto e, sem medo, apresenta personagens homossexuais e bissexuais. Também não há receio em expor uma sociedade maioritariamente dominada por mulheres. Uma nota positiva à banda sonora de Lorne Balfe e à conceção do guarda-roupa e de alguns cenários. Já os efeitos especiais são em alguns momentos maus (existem Trollocs tão mal feitos que em vez de seres horrendos parecem apenas padecer de alguma doença neurológica).
Apesar de muitos problemas narrativos, “The Wheel of Time” tem potencial para ser melhor tratada no segundo capítulo [já confirmado]. É merecido que haja mais cuidado com a história e com as personagens mas nunca deve deixar de dar brilho e protagonismo a Rosamund Pike, que se entrega de corpo e alma à encantadora, corajosa, misteriosa e sedutora Moiraine Damodred.

A primeira temporada de “The Wheel of Time” está disponível no catálogo da Amazon Prime.

