Baseado numa curta-metragem de 2019 que também assinou, “Ácido” (Ácido) segue uma família que tenta sobreviver num mundo à beira da extinção devido à queda de chuva ácida, a qual corrói progressivamente qualquer material com que entre em contacto.
Protagonizado por Guillaume Canet, o novo filme do realizador “La nuée” insere-se numa nova vaga do chamado ecoterror e está pronto para conquistar audiências e alertar as consciências que a destruição sistemática do planeta por parte do homem pode conduzir a eventos destrutivos.
Foi em Cannes que nos encontrámos com Just Philippot, que nos falou um pouco mais sobre a sua inspiração para este filme e se ainda vamos a tempo de travar catástrofes com as que vemos em “Acide“.
Em vez de seguir a catástrofe em si, optou por acompanhar mais de perto a família. O que está por trás dessa decisão?
A família sempre esteve no centro dos meus filmes. A minha família era muito especial. E digo isto porque o meu irmão foi diagnosticado com 99 % de deficiência. O 1% que sobra sempre foi uma questão filosófica para mim, como se o fantástico existisse no real. Nesse sentido, posso dizer que cresci numa família fantástica.
As mudanças climáticas são a chave para o seu filme. Queria passar uma mensagem de alerta?
Estamos neste belo momento num rooftop em Cannes a olhar para o mediterrâneo. Ou seja, estamos muito bem. Porém, creio que queremos acreditar que tudo vai ficar bem no final, porque amamos a vida. Eu amo a vida e quero passar esse amor aos meus filhos. Mas existem muitos sinais de alarme. Catástrofes a crescerem em todo o lado, a pandemia COVID, a guerra na Ucrânia, o aquecimento global. Factos. Queria falar disto de maneira frontal. Queria com o “Acide” diminuir a distância entre as pessoas e as catástrofes do dia a dia. Queria iniciar uma conversa com o meu filme.

E acha que é possível ainda inverter as coisas ou crê em teorias como a colapsologia que acreditam que não há nada a fazer e o fim do mundo vem aí?
Não sou fã do termo colapsologia, nem acredito nisso. Talvez esteja em negação para me proteger. Existe algo de consequências nessa teoria da qual tenho mesmo medo. Mas sinto-me incapaz de acreditar que estamos a colapsar e não podemos fazer nada contra isso. Não quero acreditar nisso. Quero acreditar que conseguimos mudar as coisas para melhor. Acredito na filantropia, não no sentido financeiro, mas de pensar e fazer o bem. Creio que iremos partilhar uma reflexão e acredito na capacidade do amor para nos levar a sarar e reparar os estragos.
Fala-se muito do ‘nós’ nesta questão. Há 20 anos a Al Gore esteve aqui em Cannes a dizer “nós conseguimos mudar”. Serão realmente as pessoas maduras o suficiente para efetuar uma mudança e esse “nós ‘ realmente funcionar?
A grande diferença de ontem para hoje é como vemos um pouco no filme. Temos uma criança a agir como adulta. A juventude hoje está mais preparada para mudar as coisas. Existe uma maior maturidade ecológica no mundo e ela vem essencialmente dos jovens.
O relacionamento complexo entre pai e filha no meio de uma catástrofe levou-me até “A Guerra dos Mundos”. Foi esse filme uma inspiração?
Para o meu filme anterior, as grandes influências foram o “Petit paysan” e ‘The Fly”.
Para o “Acide” tive o “Un pays qui se tient sagee” como fundamental. É um documentário brutal sobre a violência policial, em particular contra os coletes amarelos. Para mim foi um filme de horror. Depois, claro que os filmes de Spielberg em talvez mais, do Alfonso Cuarón inspiram-me. E há também um filme russo chamado “Requiem for a massacre”. Os filmes russos são sempre para mim fontes de inspiração. Além destes, vi também muitos documentários sobre o mundo sindical para trabalhar a personagem interpretada pelo Guillaume Canet.
“Acide” estreou na secção Midnight em Cannes. Uma secção muito associada a filmes de género. Que lhe diz essa terminologia?
Não concordo muito nem gosto do termo filmes de género. É cinema e o que admito que faço é usar certas ferramentas específicas desse suposto género de filmes
Está a preparar um novo filme, o qual vai tocar no tema dos ataques em Paris, em particular no Bataclan. Pode falar um pouco sobre isso?
Cresci em Paris e fui a muitos concertos no Bataclan. Quando a cidade foi atacada, senti que de certa maneira também o fui. Tenho este projeto com a HBO e tem a ver com o Bataclan. É sobre uma personagem obscura que mentiu sobre a relação que tinha com uma das vítimas. Aos poucos, ela ligou-se muito a associações de vítimas, mas viu algumas coisas serem reveladas que questionavam a sua história. Quero respeitar o ataque de Paris, o que quer dizer que não quero usar estes ataques como um elemento para um thriller. Porém, esta mulher representa um pouco o que é a ficção. Nós, como amantes de histórias, adoramos mentirosos. O filme vai falar sobre isso.

