Misantropo convicto, De Roller, Alto Comissário da República na Polinésia Francesa, travou a sua crença na evolução humana no momento em que substituiu o idealismo pelo tédio. Faz lembrar a personagem de John Malkovich em The Sheltering Sky (1990), de Bernardo Bertolucci, da mesma forma como evoca os angustiados (mas engessados) aristocratas encarnados por Burt Lancaster na filmografia de Luchino Visconti, seja em Conversation Piece (1974), seja Il Gattopardo (1963). Só um traço essencial os difere: nessas criaturas imortalizadas por cineastas italianos, existiam um coeficiente de romantismo, um senso de desatino passional. De Roller virou uma geladeira, que só se deixa derreter no exercício do hedonismo. É um tipo que valoriza os bons trajes (sempre ternos brancos), os bons fumos e o gozo. Mas tem lá a sua quota de inquietude. Quota essa que deu ao seu intérprete, Benoît Magimel (numa atuação em estado de graça), o seu terceiro César, o segundo consecutivo, uma vez que foi laureado no ano passado por De Son Vivant”, e o primeiro de Melhor Secundário, em 2015, por La Tête Haute. De Roller é a alma de Pacifiction: Tourment sur les Îles”, longa-metragem do catalão Albert Serra, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes e virou uma espécie de bússola estética (de forma completamente inusitada e nada justa) ao ser eleito “O” filme de 2022 pela Cahiers du Cinéma. Há um snobismo (tradicional ao periódico) nessa escolha, na sintonia com uma narrativa sem uma brecha sequer para o pop, demasiadamente lenta, com foco na contemplação de um mundo – e de um conceito de aristocracia – em derrocada. Mais Visconti que isso, impossível. Mas sem pathos à flor da pele.

Amparado na fotografia dionisíaca de Artur Tort, avessa aos clichês do exotismo, “Pacifiction: Tourment sur les Îles” sai da microfísica do Poder na ilha do Taiti num momento em que o local está cercado de rumores sobre o possível regresso dos testes nucleares franceses. De Roller é o representante do Estado na região, embora não tenha resquício algum de esperança no seu peito para se animar a reverter catástrofes anunciadas. Tenta entender o que se passa, de forma quase passiva, agindo pontualmente, quase que por inércia, numa espécie de dívida de gratidão com um paraíso em Terra que lhe dá sexo, sol e água fresca. É sua missão tentar tomar o pulso da ilha, mediando as pressões da população local, de modo a apaziguar a égide dos milionários que lucram a explorar aquele espaço paradisíaco, refastelados no turismo sexual das mais variadas ofertas. É tarefa de De Roller apaziguar desde barões a ativistas, num trânsito retórico e geográfico de receções oficiais a ensaios para um espetáculo de dança tradicional e uma competição de surf. Só o que não muda é a certeza dele diante de como a sociedade falhou ao se dividir em castas que se separam pelo valor da conta bancária.

É inegável um certo traço marxista em Pacifiction: Tourment sur les Îles”, como nunca havia sido visto na obra de Albert Serra, sempre pomposa na forma, mas sempre debruçada sobre um certo vazio existencialista, como visto em El Cant Dels Ocells (2007) e Honor de Cavalleria (2006). Depois da láurea especial do júri da Un Certain Regard cannoise que conquistou em 2019, com Liberté”, o seu prestígio passou a outra escala. Ele passou a ser um cronista da derrocada de uma Europa autocentrada, mas ajoelhada sobre as glórias que não mais lhe cabem. Visto sob esse prisma político, o seu novo filme ganha uma envergadura ética que é justificada pela sua narrativa observacional e reflexiva, sempre atenta a figuras de comando.

Serra tem diante de si um universo natural que poderia ser tratado como um idílio, mas ele se aproxima dele a partir de uma premissa política de choque social, entre ricos e pobres. Todo o conceito do filme parte de um desejo de distorcer perceções e gerar uma série de camadas sonoras que lhe permitam gerar paranoia na plateia. É uma partilha do estado de alerta em que De Roller e os demais estão.  É nessa paranoia e na interpretação magistral de Magimel que a longa-metragem sustenta o seu vigor, embora peque por uma certa monotonia inerente a planos por demais estendidos e pelo excesso de pompa.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/ale9
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
pacification-uma-pomposa-mas-vivida-cartografia-da-derrocadaÉ na paranoia e na interpretação magistral de Magimel que a longa-metragem sustenta o seu vigor, embora peque por uma certa monotonia inerente a planos por demais estendidos e pelo excesso de pompa.