“Que a família implodiu, já sabemos. Isso não é de hoje.
Dela restou uma determinada figura de homem, uma determinada figura de mulher.
Figura de uma célula conjugal.
Mas esta vem se ‘desterritorializando’ a passos de gigante.“
É com estas palavras que Suely Rolnik inicia o texto provocador, “O amor, o impossível e uma nova suavidade“. Um texto em que somos confrontados na nossa forma de amar, de viver a dois e em família.
E é sobre esta “paisagem” que versa “Desejo de voar” (Mare, 2020), uma longa-metragem ficcional com roteiro e realização de Andrea Štaka (Lucerna, 1973-).
Mare é a protagonista do filme (imagem acima), interpretada de forma impecável pela croata Marija Skaricic.
Uma mulher que nunca voou, entretanto vive nos arredores do aeroporto de Dubrovnik, com o marido e os três filhos. Ela ama e cuida bem dos filhos, mas se sente deslocada, uma estranha em seu próprio lar.
Um dia um jovem trabalhador se muda para a casa ao lado e a sua vida familiar insípida é colocada à prova.
No drama “Desejo de voar“, durante 84 min, somos levados a conhecer a vida quotidiana de uma dona de casa e os seus afetos, uma mulher de cerca 45/50 anos, de classe média-baixa que vive com a família num bairro periférico de Dubrovnik/Croácia. Ela é adorável, carinhosa, simples e atraente, mãe e esposa dedicada, não tem vida pessoal. O marido é mais velho que ela, fisicamente não atrativo, com sobrepeso e está sempre ausente, a trabalhar no aeroporto como segurança/vigia, recebe um parco salário. Quando chega em casa, ele bebe, come, vê TV, tem sexo com a esposa sem ela desejar, e dorme. Vivem numa casa singela e de aluguer, casa que a qualquer momento devem desocupar. A família não tem para onde ir, mas o proprietário anunciou que vai precisar do imóvel. Os filhos já crescidos (cerca de 12, 15 e 17 anos) passam o dia na escola, saem cedo e voltam à noite.
Mare é importante e central para o bem-estar físico e emocional da sua família, mas ela é invisível para eles; não tem privacidade alguma, nem mesmo quando vai a casa de banho, o que se pode ver numa cena do filme, pelo entrar e sair dos integrantes do lar, enquanto ela urina.
A realizadora opta por filmar com câmara em 16 mm para acompanhar Mare dentro de casa nos afazeres domésticos repetitivos, num espaço opressivo e reduzido, como se ela estivesse confinada. E por vezes, é enquadrada de costas observando pela janela a vida que passa lá fora. O grão da imagem em 16mm ajuda a dar tensão e a potencializar os sentimentos de Mare; ao contrário da imagem digital, que permite uma estética mais limpa, leve.
A vida de Mare é uma mesmice e ela deseja alguma transformação, ou melhor, almeja recuperar a sua liberdade, autonomia e individualidade, sem ter de se dedicar exclusivamente aos filhos e ao marido. Ela não aguenta mais carregar o peso doméstico.
Aparentemente no “lar”, a mãe e o pai se dão bem, mas são imensamente desconectados um do outro.
O filho adolescente é rebelde e expressa ser infeliz, afronta e desrespeita a mãe a toda a hora. Ele, assim como a mãe, não suporta viver naquela casa e bairro suburbano em que nada acontece.

O pai e o filho adolescente não veem Mare, além de esposa e mãe, a mulher que faz todos os serviços caseiros, limpa a casa, vai ao supermercado, prepara as refeições, lava a louça e as roupas, cuida e organiza os filhos para a escola e busca-os ao final do dia. Ela deseja mais do que isso. Mare quer e insiste em trabalhar fora de casa, todavia o marido repreende-a e diz que os filhos precisam da sua atenção. Ela persiste, fabrica algum tempo para vender ervas secas, alecrim, salsa, etc., numa banca improvisada na rua, tenta fazer algum dinheiro, pelo menos para comprar um soutien que precisa.
Os pais de Mare também são pobres e vivem numa área rural não muito longe da cidade de Mare. De vez em quando, ela visita-os em busca de um respiro e como forma de ficar longe do marido, pelo qual já não sente nada, é obrigada a fazer sexo, e não recebe nenhum carinho ou atenção no dia-a-dia. Para além do universo familiar, Mare tem uma amiga que trabalha no supermercado, com quem às vezes conversa no próprio supermercado. Porém, esta não é sua confidente. E este é o seu mundo.
Numa das suas visitas à casa dos seus progenitores, Mare questiona o pai pelo facto de não tê-la deixado continuar a viver na Suíça, o que nos dá a entender que ela migrou e esteve um tempo por lá quando era jovem. O pai responde: “porque eu queria você no caminho certo”. Pelo que ele dá a entender, o caminho certo seria a Mare casar-se, ter filhos e viver infeliz. Isto é bem comum na sociedade, os homens decidirem o destino das mulheres, isto é, os pais, os maridos, e por aí vai.
A vida diária de Mare escorre e eis que acontece a possibilidade de alguma mudança, a sorte ainda que efemeramente cruza o seu “caminho certo”. Ela conhece na rua, por acaso, o tal jovem trabalhador que mencionei anteriormente, o estrangeiro/polaco (imagem a seguir). Um homem charmoso e amável, recém-chegado à cidade para trabalhar temporariamente no aeroporto e ser vizinho de Mare. Ele de imediato se interessa por ela, dando-se assim conta que está viva e que pode ser desejada, já que o marido não lhe dá nenhuma atenção. Às escondidas ela inicia um caso com o forasteiro, e então a vemos feliz.

E esta parece ser a única transgressão possível para Mare, ainda que passageira e arriscada, num lugar em que nada ocorre de interessante. Ela, ingenuamente (ou por desespero), propõe ao homem partirem juntos. Ele ri na cara dela e recua. Que homem jovem vai querer uma mulher pobre, casada e com 3 filhos? Entretanto, o marido dela começa a desconfiar das escapadas extramatrimoniais, perguntando-lhe se ela o está traindo. Ela nega.
É visível que Mare está diferente e está feliz. O seu comportamento muda, chegando em casa depois do marido e dos filhos, etc. Aliás, o marido acaba por não insistir, e não se opor. E esta é uma crítica desfavorável que faço ao filme: a realizadora constrói a figura de um marido que aceita naturalmente as coisas e a traição da esposa (sem viverem num relacionamento aberto), um homem que é o único provedor financeiro da família. Sabemos, infelizmente, que no plano da realidade, em geral, neste tipo de família o homem é quem comanda tudo e não aceita as mudanças de comportamento da mulher facilmente.
Mare não fica com o estrangeiro simplesmente para trair o marido. Ela já não consegue lidar com a função de ser mãe e esposa, urge sair deste mundo, quer se sentir amada, desejada, valorizada, ter a sua individualidade e poder fazer escolhas. Ela sente-se só, está insatisfeita com o lugar e com a vida contida que leva, quer sair dali, “mas não pode, você é do pai”, disse-lhe o filho rebelde, que também não quer viver aquela vida desprezível. Esta mulher, a sua mãe, não pode se libertar do marido. Como se ela fosse propriedade dele e tivesse condenada a partilhar a vida eternamente com o mesmo homem.
Usando palavras de Suely Rolnik, Mare não atura mais estar isolada e “anestesiada da sensação de mundo, numa casa onde se sente desterritorializada. “A família implodiu. Dela restou uma determinada figura de homem, uma determinada figura de mulher”.
Embora haja uma tentativa de transgressão de Mare, tudo indica que em casa as coisas vão continuar como estão, juntos em família, uma parentela em que os laços afetivos e íntimos da célula conjugal já se romperam e não mais se sustentam. Como se o destino da mulher estivesse traçado com aquele do marido, como se as pessoas estivessem inevitavelmente atadas umas as outras. Nos tempos de hoje, este tipo de relação e família anda mesmo impossível.
Entretanto e no final de tudo, apesar de Mare não se libertar do marido, das exigências de ser esposa, dona de casa e mãe de três filhos; ela conquista algo. Quando o marido percebe que quase perdeu a esposa para o rapaz estrangeiro (ele foi-se embora, por ter terminado seu trabalho), ele então finalmente concorda em deixa-la trabalhar no aeroporto. E assim, apesar dela ter que continuar a viver aquela vida pacata, infeliz e sem sabor com o pai dos seus filhos, pelo menos consegue um trabalho e uma renda mensal para a sua autonomia financeira.
A realizadora aborda de modo sensível e feminino o anseio de Mare pela liberdade e individualidade. Constrói uma personagem audaciosa, contudo, mesmo ela não tendo atingido tudo o que queria, já conseguir a independência financeira é um primeiro passo para romper com outras barreiras sociais enquanto mulher.
O filme é esteticamente bem filmado, envolvente e belo, com narrativa e planos mais lentos e longos. Vale a pena ver, afinal são ainda poucos os filmes sobre mulheres, cujas histórias são contadas e realizadas por mulheres.
A realizadora Andrea Štaka é conhecida por ter conquistado o Leopardo de Ouro no 59º Festival Internacional de Cinema de Locarno em 2006, pelo seu filme “Fraulein“, sobre uma migrante de Belgrado que há anos vive na Suíça. A atriz Marija Skaric (que interpretou Mare), também atuou nos filmes anteriores de Štaka. “Desejo de voar“ (Mare, 2020), o filme é a terceira longa-metragem da realizadora e está disponível na MUBI.



















