Seguindo a vasta tradição de Hollywood em levar ao cinema histórias contemporâneas que refletem a mítica batalha David x Golias, o australiano Craig Gillespie – de “Cruella” e “I, Tonya” – decidiu levar ao cinema a sua versão do affair GameSpot, um caso que não apenas “abanou” com o mercado de ações nos EUA, porque expôs à luz de todos a ilusão (utopia) do mercado livre e da “mão invisível do mercado” que Adam Smith falava, como o “coração” da própria democracia e da fantasia da alegada igualdade de oportunidades para todos.
Caso não façam a mínima ideia do que estamos a falar, quando falamos da GameSpot, comecemos por aqui: A GameStop é uma empresa dedicada à venda de artigos relacionados com videojogos e já tinha alguns problemas em concorrer com as grandes cadeias de comércio digital. Com a pandemia e o encerramento forçado das suas lojas físicas, apenas contrariado a certo momento por venderem também ratos para o computador (considerados um bem essencial), a empresa ficou ainda mais debilitada, antevendo-se assim a queda do valor das suas ações na bolsa. Estimava-se assim que, tal como a famosa cadeia de videoclubes Blockbuster, que descambara umas décadas antes, a Gamespot seria aniquilada pelo mercado digital. Ora, antevendo isso, dois fundos de cobertura (hedge fund) e o seu “smart money”(dinheiro inteligente) começaram a apostar na queda do valor das ações do grupo, iniciando um processo de “short selling“, que consiste em pedir “emprestadas” ações, vendê-las ao antever o declínio do seu valor, comprando-as novamente mais baratas, devolvendo-as a quem inicialmente as emprestou, ficando assim com a diferença conquistada. Se a aposta for bem-sucedida, os fundos lucram com a desvalorização da empresa, comendo os investimentos dos pequenos accionistas de retalho, ou seja, apostadores do chamado “dumb money”.
A GameStop parecia um alvo inevitável, mas uma página popular do Reddit chamada WallStreetBets, via Keith Gill sob os pseudónimos u/DeepF**kingValue e Roaring Kitty (no youtube), interpretado por Paul Dano, estava em crer que a empresa tinha uma grande quantidade de pequenas negociações feitas contra ela, com os tais fundos de cobertura a fazerem milhares de transações, achando assim que, acima de tudo, a subvalorização da Gamespot era artificial. A verdade é que esses fundos esperavam que a empresa em dificuldades (600 milhões de dólares de prejuízo, 5 CEO em 2 anos) desabasse e o preço das ações caísse, mas os utilizadores do Reddit, adquirindo eles mesmo ações através da plataforma Robinhood (conhecida pelo seu modelo de comissões zero), empurraram os preços da empresa para cima. Esta ação dos compradores de ações a retalho levou a que, em determinado período, as ações da Gamespot valorizassem em mais de 1500%, provocando vários (mil) milhões de prejuízos nos fundos de cobertura, em particular a Gabe Plotkin (Seth Rogen no filme) e à sua Melvin Capital, que apesar de ter sido salva um par de vezes por injecções de capital de outros fundos, terminaria com um saldo negativo de 7 mil milhões de dólares.
Cobrindo com precisão as movimentações financeiras do caso (os factos reais que o filme fala no início), construídos a partir do livro de Ben Mezrich “The Antisocial Network“, mas especulando em tudo o resto, Craig Gillespie faz, acima de tudo, uma obra geracional de cariz pop, onde as redes sociais, fóruns e apps da internet – como elementos de democratização social – são armas acessíveis por todos capaz de equilibrar a eterna luta de classes, dos pobres vs ricos. Pelo menos por uns momentos.
No seu único conto que conseguiu publicar em vida, Fernando Pessoa mostrava um banqueiro anarquista que dizia que praticava o verdadeiro anarquismo pois combatia o Sistema por dentro e as suas “ficções sociais”. Cento e um anos depois, e já depois de alguns indivíduos fazerem ataques ao sistema a partir das liberdades dentro dele mesmo, inspirado no “Strike Debt!” que surgiu após o Occupy Wall Street, Gillespie volta a encontrar alguém que combate o Sistema por dentro e expõe a céu aberto as suas “ficções”. Esse alguém foi Keith Gill que embarca numa abordagem de “luta de classes”, da união dos pobres na luta contra os ricos, para passar uma mensagem, mas não esquecendo que este é um jogo dentro do capitalismo, com resultados, claro está, capitalistas.
Mas mais importante (será?), em termos de cinema per se, que esta rebelião que merecia ser contada, estão as escolhas feitas e a forma que o Gillespie utiliza para o fazer. Acentuando o facto de todo este imbróglio ter ocorrido durante a pandemia, Gillespie consegue-nos colocar, seja num bar, numa loja, na cave de Keith, no apartamento de luxo de Gabe, ou nas infinitas reuniões por Zoom no epicentro daqueles tempos, na claustrofobia, isolamento, solidão e estado efervescente contra o estado das coisas. E traz até nós o mood plúmbeo desses tempos através do uso do privilégio individual nas suas diferentes escalas, seja através de um multimilionário, de uma enfermeira, de uma estudante e da namorada, ou de um trabalhador de origem hispânica de uma loja física GameSpot num centro comercial deserto.

Claro está que o tratamento destas personagens é sempre à flor da pele, com frases feitas que tentam cobrir qualquer índice de profundidade. Isso acontece ainda mais com o retrato do irmão de Keith, Kevin (Pete Davidson), que o próprio já veio a público contrariar, ou da esposa (perfeita) de Keith, Caroline (Shailene Woodley). Ora, é nesse arranjo dos detalhes em torno dos factos, nesse arranjo de personagens, relações e motivações, além de camadas pops que fazem explodir memes, vídeos, tiktokes e afins ao serviço do entretenimento com uma certa geração como alvo, que “Dumb Money” perde força, mesmo que por trás das personagens tenhamos atores com créditos, como Dano, Rogen ou America Ferrera, que tentam dar vida essencialmente a bonecos estereotipados moldados a servirem a história. No caso da dupla de criadores da RobinHood, Baiju Bhatt (Rushi Kota) e Vlad Tenev (Sebastian Stan), a construção hiperbólica das figuras atinge o seu auge, como se fossem de um universo de estrelas e não players do mercado.
Embora longe do “chico-espertismo” de um Adam Mckay (A Queda de Wall Street) e do cinismo de “O Lobo de Wall Street” na análise económica e didática dos excessos do capitalismo, e tentando capturar uma era (pandémica), uma geração (ativista de “causas” longe das tradicionais ideologias) e as “ficções” de um sistema secular que jura ser justo (mas não é), Gillespie faz assim um filme apenas capaz de sobreviver pela história, pois todo o arranjo que manipula para servir essa mesma história transforma tudo num objeto profundamente superficial e meramente ao serviço do entretenimento (com o “WAP” de Cardi B a servir de cereja no topo do bolo dessa ambição). É escapismo embrulhado em papel de “ativismo”.




















