Espécie de Frances Ha (2012) mais colorido e menos parvo, Garance entrou na corrida pela Palma de Ouro de 2026 ostentando no título o nome da sua personagem central, tal como acontecia na dramédia que consagrou Greta Gerwig há 14 anos. Frances não sabia bem o que fazer da sua vida entre coreografias exóticas e relações falhadas. Já Garance sabe. É uma atriz talentosa e acorda às seis da manhã para se preparar para as peças infantis em que entra. Tem um lugar — ainda que pouco estável — numa companhia de teatro para adultos. Até faz dobragens para pagar as contas. O problema? Entre uma tarefa e outra, na procura pelo sucesso, bebe. Bebe litros. Litros não… oceanos. É vinho branco aqui, vinho branco ali. A saúde hepática já foi.

No meio das bebedeiras e dos conflitos com amigos e familiares desesperados por vê-la bem — incluindo uma médica bastante intrusiva —, a jovem encontra um amor… daqueles que fazem rir entre suspiros… e tenta cuidar da irmã, que sofre de leucemia. Tudo isto, que a faz oscilar entre a perseverança, o encantamento e a tragédia, ganha vida graças às múltiplas virtudes cénicas de Adèle Exarchopoulos, que enche qualquer ecrã de vitalidade sob a realização, nem sempre firme, de Jeanne Herry.

Em 2013, quando La Vie d’Adèle (2013) ganhou a Palma de Ouro das mãos de Steven Spielberg, então presidente do júri, o realizador norte-americano afirmou que o prémio também pertencia às suas atrizes, Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, que, acabada de chegar aos holofotes, se tornou uma estrela instantânea. Faltava-lhe apenas um papel que transcendesse fronteiras. Garance parece feito para isso. A sua interpretação é inflamável, mesmo quando o argumento de Jeanne Herry, realizadora de Elle l’adore (2014), resvala para um moralismo capaz de provocar ressaca. A forma judicativa como a cineasta trata o alcoolismo oscila entre o didatismo primário e o maniqueísmo. Que o excesso faz mal, adoece e até mata, toda a gente sabe. É importante sabê-lo. É importante falar desse risco. O problema está na forma como esta longa-metragem, de dinamismo narrativo inegável, o faz.

Entre mudanças de cidade, festas, encontros amorosos e crises de ansiedade, Garance afoga-se em copos cheios, numa autodestruição que parece não reconhecer. A bebedeira não nasce de traumas. Ela bebe porque gosta. Só que a sua vida pessoal começa a entrar em colapso. Pelo caminho, envolve-se sexualmente com uma mulher assumidamente lésbica, incapaz de conter o desejo, acabando por se apaixonar por uma jovem que a conquista pela doçura, interpretada por Sara Giraudeau.

Mais experiente como argumentista do que como realizadora, Jeanne Herry, filha da atriz Miou-Miou e do cantor Julien Clerc, construiu a carreira através de dramas humanistas sobre mulheres confrontadas com processos de amadurecimento particularmente severos. Garance é a expressão mais luminosa desse percurso, com Adèle Exarchopoulos pronta — e plenamente preparada — para subir mais um degrau no panteão das grandes divas francesas.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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