Com a irreverência e ativismo militante de um Michael Moore, uma forma entre o didático, o sarcasmo e o “chico-espertismo” de Adam Mckay, e um toque muito britânico que começa logo na escolha do título (“Bank Job” é um termo muito associado a golpes aplicados a bancos), Daniel Edelstyn e Hilary Powell desenvolvem um documentário em torno da sua artimanha para chamar a atenção dos britânicos para os problemas do crédito financeiro.
O filme, exibido no Hot Docs, começa mesmo com uma análise à palavra “dívida” e como esta têm sido abusada pelas várias instituições bancárias, especialmente desde os anos 2000, com promessas dos bancos aos seus clientes de empréstimos rápidos e pré-aprovados, que depois levaram à ruína de muitos deles.
Enfiados no meio de dívidas eternas que alimentam a indústria bancária com o pagamento de juros, os clientes viram-se envolvidos num novelo difícil de desatar.
Muitos bancos que se viram com os chamados créditos tóxicos (pensem no Banco Espírito Santo, entretanto transformado em Novo Banco), apesar de terem sido financiados e verem essas dívidas cobertas por dinheiro público, revendem a dívida a outras instituições privadas a valores extremamente baixos, tentando depois esses novos proprietários das dívidas, através de muito bullying aos consumidores, reaverem a totalidade da dívida. Muitos de nós já assistimos a isso nas nossas vidas, com telefonemas intrusivos e sistemáticos a tentarem cobrar o que prescreveu (e até já foi pago colectivamente) há muito, mesmo com ameaças de penhoras impossíveis de concretizar judicialmente.
Para chamar a atenção do público britânico, a dupla – inspirada no “Strike Debt!” que surgiu após o Occupy Wall Street – aplica então uma ação ousada na forma da criação de um banco – localizado numa rua principal de Walthamstow, no norte de Londres – que cria o seu próprio dinheiro para apoiar instituições de caridade locais e comprar 1 milhão de libras em dívidas predatórias a fim de amortizá-las.
Com a dívida de várias pessoas comprada por outras pessoas, ao invés das empresas de cobranças, o sistema financeiro foi invadido de um jeito não diferente ao recente caso GameSpot, expondo as fragilidades do sistema e levando mesmo as autoridades a intervirem.
Edelstyn e Powell brincam inclusivamente com isso, quer numa abordagem metafílmica, em que os realizadores independentes começam mesmo por pedir dinheiro emprestado para financiar o seu filme que pouca gente vai ver, explicam às autoridades como aplicaram o golpe e culminam com uma verdadeira explosão de uma viatura com títulos de dívida entretanto comprada, deixando livres os “devedores” (alguns deles se calhar nem sabem que a sua dívida foi comprada e “abatida”).
No final, mais que um objeto cinematográfico luxuoso, temos um espírito ativista notável que não deixará ninguém indiferente e prova que este sistema económico e de crédito está construído para verdadeiros abutres financeiros e especuladores alimentarem-se à custa dos incautos.




