Não é apenas nos EUA que o chamado biopic adquiriu particular importância nas bilheteiras globais. Uma prova disso é a França, onde nos últimos anos têm se multiplicado obras em torno de figuras marcantes da sua história. E enquanto se espera um filme sobre Simone Beauvoir, obras como “De Gaulle” (2020), “Eiffel” (2021) e “Simone, Le Voyage Du Siècle” (2021) acompanharam Charles De Gaulle, Gustave Eiffel e Simone Veil, com “Bonnard, Pierre et Marthe” e este “L’Abbé Pierre – Une Vie De Combats” (Abbé Pierre, Uma Vida de Causas) a seguirem a tradição já em 2023
Assinado por Frédéric Tellier – de “Golias” (2021) e “Vida por Vida” (2019)-, “Abbé Pierre, Uma Vida de Causas” visita a história de Henri Antoine Groués (1912-2007), mais tarde conhecido como Abbé Pierre, desde os tempos em que abandonou a Ordem dos Capuchinhos, até o seu trabalho mais recente, que passou pela fundação da comunidade Emaús. Pelo meio, passamos inevitavelmente pela Segunda Guerra Mundial, a sua luta na Resistência aos nazis, e a oposição ativa ao Holocausto. Já no pós-guerra, ele permaneceu no combate contra a pobreza, destacando-se a criação do Movimento Emaús, uma organização que saiu do espectro religioso e que ainda hoje luta contra a exclusão social.
“Para ser honesto, este é o tipo de tema que não surge quando acordamos de manhã e sonhamos com ele”, explicou-nos o cineasta em Cannes sobre a origem do projeto. “Neste caso, a ideia não veio de Abbé Pierre em si, mas sim de uma revolução social. Provavelmente estou num período da minha vida em que sinto uma enorme cólera com o mundo à minha volta. Além disso, as discussões com o meu produtor sobre estes temas levaram à evocação do Abbé Pierre, embora não fosse um conhecedor profundo da sua vida”.

Apesar de ser uma personagem famosa e muito querida em França e de ter algumas noções sobre a sua vida, Tellier confessa que “teve de estudar muito” para chegar ao nível de informação requerido “para fazer um filme sobre ele”. “Já houve um filme sobre o Abbé Pierre, mas que só contava uma parte da sua vida. Para fazer este filme, investiguei muito e encontrei-me com muita gente que conviveu com ele. Nesse processo, descobri muita coisa da sua vida que, mesmo nós, os franceses, não tínhamos ideia sobre ele, como o ter feito parte da Resistência na 2ª Guerra Mundial.”
Estética
Para levar uma história do passado ao cinema, Tellier confessa que procurou atualizar a estética habitual destes biopics, fazendo para isso muitos ensaios visuais. “A minha principal atenção era como modernizar este género de propostas cinematográficas. Como contar uma história que não se sentisse do passado, mesmo sendo. Ele foi durante 30 anos uma das personagens preferidas dos franceses e pensei constantemente em como falar dele, fazendo um espetáculo cinematográfico no processo, mantendo uma fidelidade com as emoções. Fiz muitos ensaios visuais para chegar aí. Estudei muito a fotografia e vi alguns filmes. Fui, por exemplo, influenciado pela estética do “McCabe & Mrs. Miller” (A Noite Fez-se Para Amar), com o Warren Beatty”.

Já o trabalho com os atores foi assente em muita partilha, leituras sucessivas do texto e, claro, repetições e repetições.”Quis personagens que se aproximassem o máximo das reais, mas sem o mimetismo total. Também não queria a imitação da voz, ou caracterizar fisicamente essas personagens – com o mesmo nariz – como as verdadeiras. Mas era preciso ter em atenção o afastamento das personagens reais, por isso tivemos cuidado com as frases, a dicção delas, etc ”, explica-nos.
“Abbé Pierre, Uma Vida de Causas” chega aos cinemas portugueses a 9 de novembro.

