Filme mais visto na Letónia desde a sua independência em 1990, “Blizzard of Souls” entra por terrenos semelhantes a “1917” e “Cavalo de Guerra“, mas de forma muito mais académica e preocupada em honrar a sua figura central: Artūrs Vanags, um jovem de 17 anos que parte para a guerra após os alemães assassinarem a sua mãe.
Baseado nas memórias de guerra de Aleksandrs Grins, interditas na União Soviética por mais de seis décadas, “Blizzard of Souls” é construído exemplarmente dentro das bases do cinema de guerra de índole mais comercial e de elevação nacional, destacando-se a forma “by de book” que o realizador em estreia Dzintars Dreibergs aplica, e a cinematografia de Valdis Celmiņš, que nos aproxima da “imundice” do conflito, das vítimas empilhadas, dos seus temíveis terrenos inóspitos que serviram de tabuleiro e cemitério para tantos, enquanto – claro – traça um retrato superficial das ideologias políticas envolvidas, que vão desde a germânica à sombra do Kaiser, à russa czarista e à soviete com os ventos de Lenine a soprarem a revolução vermelha. Na verdade, todas estas forças encostaram às cordas uma Letónia que teve de lutar em diferentes frentes pela sua independência.
Mas o que também sobressai mais por aqui é um vulgar coming-of-age bélico, a perda de inocência de um rapaz que se vê forçado a ir para a guerra, e que pelo caminho – à medida que as cicatrizes (físicas e psicológicas) se amontoam – vai mudando a sua forma de ser e de ver o mundo. Perseverança e resiliência são assim pontos fulcrais neste objeto sempre didático e melodramático (banda-sonora de Lolita Ritmanis acentua isso), não faltando ainda uma ponta de romance e de drama familiar, até porque o pai do rapaz – um condecorado soldado – também anda pelo conflito ao lado do filho a “vê-lo crescer“.
No fundo, estamos perante um filme com indiscutível qualidade técnica e com relevância histórica para os letões, mas que para o resto do mundo, eis um objeto antiquado no seu patriotismo, e de grande previsibilidade sobre um conflito razoavelmente bem explorado pelo cinema nos últimos anos – onde até em Portugal foi lançado “Soldado Milhões” e “Mosquito” (embora este decorra longe do palco principal do conflito: a Europa).















