Javier Mariscal anima a abertura do Festival do Rio

(Fotos: Divulgação)

A notícia do sucesso de vendas na Espanha da BD “Dispararon Al Pianista” faz a alegria transbordar do peito do designer e animador valenciano Javier Mariscal, enquanto ele circula pelo Brasil, no 25. Festival do Rio. A banda desenhada que hoje enche de euros os cofres das livrarias ibéricas é uma versão ilustrada do filme homónimo assinado por Mariscal e Fernando Trueba, com base no desaparecimento de um às brasileiro do piano: Francisco Tenório Cerqueira Junior (1941-1946).

Tenho que ser sempre grato ao Fernando por estar sempre a me apresentar descobertas musicais. Ele é como uma enciclopédia viva de música. Conheceu a obra de Tenório Jr. ao lançar o documentário ‘O Milagre do Candeal’ na Bahia, e foi tentar saber quem foi aquele homem, um desaparecido que foi torturado e massacrado“, conta Mariscal ao C7nema, na sede do Festival do Rio, no bairro da Glória.

Exibido com sucesso no dia 22 de setembro na mostra oficial do Festival de San Sebastián, no norte espanhol, onde foi ovacionado, “Atiraram no Pianista” (título em português) estreia no Brasil no dia 26 de outubro. Existe no guião de Trueba o desejo de escancarar crimes de estado. “O nosso objetivo era tentar entender ao máximo o que se passou na ditadura da Argentina e na do Brasil, a fim de poder contar bem a história de um homem que merece ser ressuscitado“, explica Mariscal.

Doze anos se passaram desde que o vencedor do Oscar Trueba (laureado em Hollywood por “Belle Epoque”) combinou a sua paixão pela música da América Latina com o amigo Mariscal, com a ambição de fazer um estudo animado sobre a liberdade de expressão: “Chico y Rita”, de 2011. Pois o mesmo tema e o mesmo formato – e a mesma indignação – voltam em “Dispararon Al Pianista” (“They Shot The Piano Player”, título nos Estados Unidos). “Na animação, a plateia faz um pacto com os desenhos e acredita na força do que o traço nos mostra“, diz Mariscal.

Na longa-metragem dele e de Trueba, o que soa kafkiano é a própria vida real, capaz de enredar um artista sem qualquer mácula no passado numa trama de desaparecimento e assassínio apenas por “estar no local errado e na hora errado”. O que se ouve nessa narrativa parte ficção, parte documentário e parte “docudrama” (a reconstituição ficcional de situações reais para dar corpo a evidências) é surpreendente e aterrorizante, mas a aposta no visual lúdico atenua uma exposição gráfica brutal da violência estatal. “Não podemos deixar que Tenório seja esquecido“, diz Mariscal.

Com o guião escrito por Trueba, “Dispararon Al Pianista” foi calorosamente aplaudido na sua passagem pelo Festival do Rio, pela exuberância da direção de arte, na qual o design de cada personagem contou com o traço do premiado ilustrador e argumentista de BDs Marcello Quintanilha (da novela gráfica “Escute, Formosa Márcia”). O protagonista da longa-metragem é um jornalista americano, com a voz de Jeff Goldblum (a mosca humana do cronenberguiano “The Fly”), que investiga o desaparecimento de Tenório. Em 1976, durante uma visita à Argentina, o músico foi comprar uma sandes para a namorada e nunca mais apareceu. Fontes do próprio sistema ditatorial argentino falam em execução. O corpo nunca apareceu, A lacuna que o seu desparecimento gerou na MPB (música popular brasileira) é irrecuperável.

Realizador de produções documentais sobre o jazz hispânico, como “Calle 54” (2000) e “El Milagro de Candeal” (2004), Trueba saiu em campo em busca de depoimentos e ouviu titãs da indústria fonográfica, animando essas pessoas, mas preservando as vozes. Paulo Moura (1932-2010), Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Gilda Mattoso, Caetano Veloso, João Donato (1934-2003) e Toquinho falam no processo investigativo do repórter interpretado por Goldblum, que teve tempo de ouvir o poeta Ferreira Gullar (1930-2016). Quem o conduz até esse povo é um especialista em melodia e letra chamado João, encarnado (só pela voz) por Tony Ramos (de “Se Eu Fosse Você”). É João quem guia o protagonista na maioria desses encontros.

É incrível ouvir o relato de Gullar“, disse Mariscal. “Foi bom ter a companhia do artista de BDs Marcello Quintanilha, que é de Niterói, pois ele era mais vivo do que qualquer Google, sendo capaz de nos dar detalhes sobre os costumes do Rio ao mesmo tempo em que fazia o design das personagens“.

O Festival do Rio segue até o dia 15 de outubro.

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