É impossível escapar à política neste documentário pessoal sobre Greta Thunberg, a pequena jovem sueca que “fartinha” de palavras ocas e ações nulas teve a ousadia, o desplante, mas essencialmente a coragem de desafiar os líderes mundiais e a sua agenda política, que responde às questões ambientais com muitas palavras de incentivo, mas sem intervenções reais e significativas.

Irritante”, “Pirralha”, “Explorada pelos pais”, e “Deficiente” são apenas algumas das palavras e frases que muitos já usaram para descrever uma miúda que aos quinze anos decidiu fazer greves à sexta-feira, sentar-se à porta do parlamento sueco e pedir que o Clima se transformasse numa prioridade da agenda política internacional. É que como naquela rubrica “Mean Tweets”, onde várias personalidades liam publicações depreciativas em relação a si, vemos Greta neste documentário sensível e introspetivo a ler e comentar publicações nas redes sociais onde lhe chamam de tudo, com Trump e Bolsonaro na lista dos seus arqui-inimigos, e Macron, Junker, Guterres e Putin também a opinarem sobre ela.

Claro está que existe o reverso da medalha: um “irritante” grupo de jovens – onde destaco ainda Autumn Peltier, Xiuhtezcatl Martinez, Lesein Mutunkei, Xiye Bastida e Anuna De Wever (várias vezes presente no documentário) – que se organizou e exige (não pedem) uma vida mais sustentável. “Q’horror“!

A verdade é que nos últimos anos surgiram uma série de jovens que desafiam os poderes instituídos, que tomaram a palavra em detrimento dos “adultos”, e se Malala Yousafzai se transformou num símbolo de resistência pela educação e contra o extremismo, Greta Thunberg é – sem qualquer dúvida –  a faceta mais mediática da emergência climática, embora muitos a vejam, como tudo hoje em dia, como um símbolo máximo de poderes obscuros que querem tomar conta do mundo. 

Assinado por Nathan Grossman, “I am Greta” é maioritariamente composto por uma ação cronologicamente observacional em torno de Greta e das suas ações, mas igualmente uma viagem acirrada às suas patologias (Asperger), convicções, motivações e – acima de tudo – humanidade. É que ao contrário que muita gente apregoa, que Greta  Thumberg apresenta opiniões etéreas e demagogas que se resumem ao “temos de mudar as coisas, sem especificar como”, a própria apresenta aqui pequenos atos que já aplicou no seu dia a dia para deixar a menor marca possível num planeta sobrelotado. Nelas encontramos o não comer carne, o de apenas se transportar em veículos ecológicos, e exigir que os produtos que se apelidam como livres de pegada ecológica só o sejam quando no seu processo incluam também os meios de transporte. E há muito mais medidas, ideias e ações pelo meio, como também a sensibilidade e o sentido de justiça que não se pode exigir aos países menos desenvolvidos que travem o seu crescimento em relação às nações economicamente mais saudáveis – que são principalmente o seu alvo.

E até aquelas coisas que foram tratadas como fait-divers, como a sua viagem numa embarcação de Inglaterra a Nova Iorque para falar nas Nações Unidas (onde expressou o famoso “How dare you?”) são aqui contextualizadas, não de forma inquisidora ou vinculativa de como todos deveríamos viajar (evitando a poluente indústria da aviação), mas sim como uma maneira de mostrar que hoje em dia estamos em tempos onde é manifestamente impossível – neste modelo de sociedade e economia – viver de forma sustentável.

A desilusão é também uma marca muito acentuada neste trabalho, à medida que Greta avança na transmissão das suas ideias e recebe como resposta verdadeiros labirintos de promessas vãs. Os risos, choros e a sua solidão eterna são também marcadas a ferro e fogo.

Nisto, “I’m Greta” é mais que um manifesto político ou um retrato do ativismo moderno, pois mostra-nos igualmente o contraste entre o que Greta Thunberg é, a imagem que transmite para o público, e a construção conspiracionista que muitos elaboram em seu torno. Nem Deus, nem o Diabo. Apenas uma miúda cuja voz se fez ouvir no meio do ruído…

(Texto originalmente escrito em novembro de 2020)

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
i-am-greta-cronicas-da-vida-de-uma-pirralhaUm retrato intimo e pessoal à face mais mediática da emergência climática