Se há coisa que sobressai à partida em “You Won’t Be Alone“, primeira longa-metragem de Goran Stolevski, é a forma como ele se apropria da linguagem narrativa e visual do cinema de Terrence Malick para transportar o espectador para um conto de horror, de toada feminista, ambientado no século XIX, na Macedónia.
“You Won’t Be Alone” é, grande parte do seu tempo, um body horror adocicado por uma narração poética sobre um espírito antigo que vive nos bosques macedónios, tudo enquanto faz um travelling pela sociedade patriarcal da época. O nosso primeiro contacto com esse espírito é quando uma mãe solteira em dificuldades, Biliana (Alice Englert), tenta evitar que a sua bebé, Nevena, sirva de alimento para a “bruxa” e “comedora de lobos” (Anamaria Marinca) que o espírito incorpora.
A tarefa é parcialmente conseguida, fugindo a mulher com o bebé para uma gruta onde a “bruxa” não poderá fazer mal à pequena até aos 16 anos, altura em que a jovem lhe será entregue. Passamos então para anos mais tarde, com o desejo da jovem rapariga em sair do espaço onde sempre viveu, assumindo agora a sua condição de possuída que no percurso pela liberdade e vida vai requisitar novos corpos, como o de Basilka (Noomi Rapace), que ela mata sem querer, ficando no seu corpo, e Boris (Carlotto Cotta), o galã da aldeia que se transforma completamente após a possessão.
Numa jornada cheia de sangue, passando de género em género na descoberta de sensações humanas como o amor e morte, novas expetativas e comportamentos atribuídos aos diferentes sexos vão moldar a sua existência, sendo esta uma das diversas questões ligadas à condição de mulher e homens nesta época, com particular destaque para como o desejo e prazer sexual no feminino “pode assustar maridos”.
Há assim, naturalmente, uma viagem crítica ao patriarcado e isso ganha maior força quando o espírito faz da personagem de Carlotto Cotta um novo corpo para incubação, mas também quando o espectador percebe que neste tempo, as “bruxas”, e consequentemente as mulheres, eram sempre consideradas culpadas por quaisquer doença ou ruindade que se abatesse sobre a comunidade.
Mas, pese embora a tendência para uma possessão Malickiana da sua forma, a direção de fotografia opta por uma palete de cores mais pesada e esbatida, um pouco como os demónios internos que o espírito carrega, que são também os da sua época e das suas gentes.




















