Beira o inexplicável a evolução que a franquia Mortal Kombat teve ao longo de cinco anos, ao passar de um pavoroso arremedo de reboot de uma febre noventista a um épico visualmente exuberante que cruza elementos do wuxia chinês com a cartilha dos filmes americanos de combate, à imagem de Bloodsport (1988). O esmero visual é notável, sobretudo tendo em conta um orçamento relativamente contido (80 milhões de dólares). Mas é no elenco, em especial num luminoso Karl Urban, que o filme encontra o seu maior alicerce.

Desde a chegada às máquinas de arcade e às consolas domésticas, em 1992, pelas mãos de Ed Boon e John Tobias, a marca Mortal Kombat vendeu mais de cem milhões de cópias ao longo de 32 títulos diferentes, aos quais se juntaram bandas desenhadas, animações e adaptações live-action de êxito semelhante. Perante estes números — e a forma como este MMA fantasioso, com licença para matar, continua a contagiar gerações há mais de três décadas —, custa acreditar que a nova adaptação cinematográfica possa falhar nas bilheteiras. O torneio mortal, embalado pelo célebre grito “Fatality!”, chegou ao cinema pela primeira vez em 1995, numa produção realizada com um orçamento modesto para os padrões de Hollywood — cerca de 20 milhões de dólares — mas que arrecadou mais de 120 milhões em todo o mundo.

Em 2021, James Wan, mestre contemporâneo do terror e responsável pela saga The Conjuring, decidiu revisitar o universo criado por Boon e Tobias numa abordagem mais sombria e febril. A pandemia travou voos comerciais mais altos, limitando as receitas a 84 milhões de dólares, mas o entusiasmo do público nas plataformas de streaming e na televisão bastou para justificar uma continuação. Surge então Mortal Kombat 2, reforçado pela presença de Karl Urban, conhecido pela série The Boys, no papel de Johnny Cage, uma figura assumidamente inspirada em Jean-Claude Van Damme. Esta nova etapa coincide, aliás, com um momento particularmente favorável às adaptações de videojogos para o cinema.

Desde a Páscoa, poucas produções alcançaram resultados comparáveis aos da animação Super Mario Galaxy: O Filme, cuja receita ultrapassou os 900 milhões de dólares num curto espaço de tempo. O filme anterior inspirado nas aventuras de Mario e Luigi já tinha superado a marca dos 1,3 mil milhões. Também Minecraft: O Filme (2025) se aproximou dos mil milhões, impulsionado pelo carisma de Jack Black. O paradigma mudou: as adaptações de videojogos passaram a demonstrar maior vitalidade comercial do que muitos filmes de super-heróis.

O fenómeno não dá sinais de abrandamento. A 15 de outubro estreia uma nova adaptação live-action de Street Fighter, realizada por Kitao Sakurai, enquanto Sonic regressa em 2027 para um quarto capítulo, agora com Keanu Reeves no elenco vocal. A este conjunto junta-se ainda Ghost of Tsushima, projeto épico de Chad Stahelski, realizador da saga John Wick.

Depois de John Wick, realizar cinema de ação tornou-se um desafio estético e coreográfico que poucos cineastas conseguiram superar. Ao mesmo tempo, o terror consolidou-se como um dos géneros mais fortes da atualidade, impulsionado pelo sucesso crítico e comercial de obras recentes. Não surpreende, por isso, que as narrativas de combate procurem inspiração no imaginário sombrio cultivado por James Wan. De Saw a The Conjuring, passando por Annabelle e The Nun, o realizador afirmou-se como uma referência no horror moderno. Em 2018, testou também a dimensão espetacular da ação com Aquaman, experiência que se revela determinante para o tom desta nova encarnação de Mortal Kombat.

Simon McQuoid, responsável pela realização desta segunda parte, constrói os enquadramentos sob clara influência de Wan, encontrando um equilíbrio entre o terror sobrenatural e a violência estilizada que o cinema pós-John Wick tornou dominante. O resultado é um filme de ritmo frenético, montagem explosiva e atmosfera permanentemente carregada.

A narrativa acompanha os planos do tirano Shao Kahn, interpretado por Martyn Ford, que procura usar um medalhão mágico para expandir os seus poderes e conquistar a Terra. Para o enfrentar, Raiden — o deus dos relâmpagos vivido por Tadanobu Asano — reúne um grupo de guerreiros e recruta Johnny Cage, ator decadente e herói relutante. Karl Urban transforma Cage num dos grandes trunfos da produção, equilibrando ironia, nostalgia noventista e presença física com enorme eficácia.

A herança estética e musical do videojogo original também regressa em força. Em 1993, a faixa Techno Syndrome, composta pelos belgas The Immortals, tornou-se um hino tanto para jogadores como para as pistas de dança. Essa batida techno-industrial marcou uma geração inteira e regressa agora, rearranjada por Benjamin Wallfisch, reforçando o sentimento nostálgico que atravessa toda a produção.

Mas Mortal Kombat nunca viveu apenas da celebração gratuita da violência. O que sempre moveu este universo é uma lógica de sobrevivência extrema, em que cada combate representa uma luta desesperada pela permanência. Os fatalities funcionam como extensão dessa filosofia brutal: uma revisão grotesca do conceito de golpe de misericórdia. Baraka, por exemplo, continua a ser uma das figuras mais perturbadoras do franchise, usando as lâminas que lhe substituem as mãos para desmembrar adversários com uma selvajaria quase operática.

Tudo isso regressa em Mortal Kombat 2 com energia redobrada. Stephen F. Windon, diretor de fotografia vindo da saga Fast & Furious, retrata o Outworld como uma metáfora infernal carregada de sombras e fogo. Já a montagem de Stuart Levy imprime um ritmo incessante à narrativa, praticamente sem dar tempo para respirar.

Ainda assim, no meio de decapitações, mutilações e confrontos incessantes, o filme encontra espaço para humanizar as suas personagens. Kitana, interpretada por Adeline Rudolph, assume particular importância emocional, ao confrontar os dilemas morais de um universo em que matar ou morrer parece inevitável. Ao lado dela, Johnny Cage acaba por assumir o papel de improvável salvador, mesmo resistindo à ideia de heroísmo que o destino lhe impõe.

A luta contra Baraka torna-se, nesse contexto, um dos momentos mais memoráveis do filme. E é precisamente aí que Karl Urban confirma a razão pela qual Mortal Kombat 2 consegue transcender a condição de simples adaptação de videojogo: a sua presença ilumina a barbárie, acrescentando humanidade, humor e carisma a um espetáculo ferozmente coreografado.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
mortal-kombat-2-aplica-um-fatality-ao-filme-anteriorNo meio de decapitações, mutilações e confrontos incessantes, o filme encontra espaço para humanizar as suas personagens.