Num momento particularmente delicado para a Argentina, entre as tensões políticas que antecedem o próximo ciclo eleitoral e uma economia ainda marcada pelos efeitos das políticas de austeridade de Javier Milei, é justamente um dos grandes símbolos culturais do país que dá rosto à 74.ª edição do Festival de San Sebastián. Ricardo Darín, figura maior do cinema argentino contemporâneo, protagoniza o cartaz oficial do certame basco, que decorre de 18 a 26 de setembro e reúne 263 títulos oriundos de 47 países. A programação do seu novo trabalho, Lo dejamos acá, da Netflix, para uma sessão no programa Other Activities, já agita o evento. É uma comédia sobre um psicanalista às voltas com um analisado complexo.

Fotografado por Sebastián Arpesella e transformado numa colagem pelo estúdio donostiarra Wallijai, Darín sucede no cartaz a nomes como Isabelle Huppert, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Sigourney Weaver, Juliette Binoche, Javier Bardem, Cate Blanchett e Marisa Paredes. É também uma escolha carregada de memória: presença habitual no Zinemaldia há duas décadas, o ator recebeu o Prémio Donostia em 2017. Desta vez, regressa para ajudar na promoção de Lo dejamos acá (Therapy Done Right), de Hernán Goldfrid, que protagoniza ao lado de Diego Peretti.
É, contudo, na corrida à Concha de Ouro que se concentra a maior expectativa cinematográfica. A Seleção Oficial abre com Geister (Ghost Song), do germano-turco Fatih Akin, história de amor atravessada pela morte, enquanto o belga Michaël R. Roskam fecha o festival, fora de competição, com Le Faux Soir. Entre ambos há uma constelação autoral que inclui Glaxo, do argentino Benjamín Naishtat, Mis muertos tristes, de Pablo Larraín, The Debut, de Jesse Eisenberg, Garrat du váimmu (Brace Your Heart), de Amanda Kernell, Markens grøde (Growth of the Soil), de Hans Petter Moland, e Artakalan (What Remains), de Yeşim Ustaoğlu.
Uma das montras fundamentais do Zinemaldia para a descoberta de novos autores, New Directors volta a concentrar primeiras e segundas longas-metragens. A secção abre com El mal hijo e termina com FLORID, funcionando como um dos principais radares do festival para realizadores que procuram consolidar uma assinatura depois dos primeiros passos profissionais.
A temperatura latino-americana sobe em Horizontes Latinos, que reúne uma dúzia de títulos e abre com Siempre soy tu animal materno, de Valentina Maurel. A realizadora costa-riquenha regressa ao seu país através da história de Elsa, que volta da Europa e encontra uma família em processo de desagregação. O encerramento cabe ao paraguaio Marcelo Martinessi com Narciso, coprodução que envolve Paraguai, Brasil, Portugal, Alemanha, Espanha, França e Uruguai e recupera uma personagem convertida em símbolo de liberdade no Paraguai de 1959.
O Brasil tem aí um dos seus pontos altos. Ricardo Alves Jr. leva a concurso, em estreia mundial, A Professora de Francês. A competição inclui ainda Ceniza en la boca, de Diego Luna, além de Moscas, de Fernando Eimbcke, Chicas tristes, de Fernanda Tovar, e Cinco años, cuatro meses, de Juan Miguel Gelacio e Esteban Hoyos García. Os três últimos passaram anteriormente pelo laboratório WIP Latam do próprio San Sebastián, reforçando o papel do festival não apenas como expositor, mas como incubadora do cinema latino-americano.
Território de risco formal por excelência, Zabaltegi-Tabakalera mantém-se como a competição mais aberta do festival, sem distinções rígidas entre duração, género ou linguagem. É a zona onde San Sebastián procura as experiências que escapam às convenções das restantes secções, colocando lado a lado longas, médias e curtas-metragens e premiando a obra vencedora com 20 mil euros.
Já Perlak funciona como uma espécie de mapa do melhor que passou pelos grandes festivais internacionais ao longo do ano. É ali que San Sebastián recupera filmes já consagrados ou destacados em Cannes, Berlim, Veneza e outros grandes encontros cinéfilos. A abertura fica a cargo de Minotaur e o encerramento de Juste une illusion, numa seleção onde aparecem ainda The Man I Love, The Invite e Fjord, de Cristian Mungiu, vencedor da Palma de Ouro de Cannes.

A renovação geracional ganha outra escala em Nest, competição internacional destinada a estudantes de escolas de cinema. Na sua 25.ª edição, o programa aceita curtas até 30 minutos e mantém uma vocação que ultrapassa a simples exibição: cineastas como Diego Céspedes, Raven Jackson, Léa Mysius e Jaume Claret Muxart passaram por este laboratório antes de avançarem para palcos maiores.
O festival estende ainda o seu braço competitivo à gastronomia através do Culinary Zinema, ao cinema basco pelo Prémio Irizar e às novas formas de criação e produção através dos programas industriais WIP Europa e WIP Latam, do Fórum de Coprodução Europa-América Latina e do Zinemaldia Startup Challenge. É uma engrenagem que faz de San Sebastián mais do que nove dias de projeções: há vários anos que o certame procura acompanhar filmes desde a gestação até à circulação internacional.
Neste enorme mosaico, contudo, é difícil escapar ao olhar de Darín. Aos 69 anos e com cerca de meio século de carreira, o ator de Nueve reinas, El secreto de sus ojos, Relatos salvajes e Argentina, 1985 transforma-se numa espécie de anfitrião silencioso desta edição. Se San Sebastián sempre foi uma das grandes portas europeias para o cinema latino-americano, em 2026 escolheu para a sua fachada um rosto que praticamente se confunde com a história recente do cinema argentino.

