Broken Voices: as vozes silenciadas da Chéquia fazem-se ouvir no BellaTOFIFEST

Inspirado num caso real que abalou a República Checa, Broken Voices, de Ondřej Provazník, chega ao BellaTOFIFEST depois da estreia em Karlovy Vary

(Fotos: Divulgação)

Inspirado em factos reais ocorridos na República Checa e num dos mais importantes coros femininos do país, Broken Voices chegou agora à Polónia via 24.ª edição do BellaTOFIFEST, certame que decorre em Toruń desde o passado sábado, 27 de junho.

Depois de uma estreia no Festival de Karlovy Vary, em 2025, o filme integra aqui a secção Must See Must Be, onde se encontram muitos dos títulos que têm dado que falar no panorama dos festivais de cinema internacionais.

Assinado pelo checo Ondřej Provazník, que passou por Portugal e pela Escola Superior de Teatro e Cinema durante cinco meses, esta segunda longa-metragem leva-nos aos anos 1990 e a um caso que abalou o país. Foi apenas em 2004 que Bohumil Kulínský Jr. foi detido e acusado de vários atos de abuso sexual de menores, com um total de 49 vítimas entre 1984 e 2004. Condenado a três anos de prisão com pena suspensa, em 2008, viu posteriormente a sentença aumentada para cinco anos e meio de prisão, que começou a cumprir em janeiro de 2009. Em 2011, a escola coral Bambini di Praga foi encerrada, mas as histórias de abuso abafadas durante décadas ainda hoje ecoam em toda a sociedade checa e estão retratadas neste Broken Voices.

Numa conversa com o cineasta, no ano passado, na cidade checa, ficámos a conhecer melhor o projeto.

Broken Voices evita seguir diretamente o trauma. Essa foi uma escolha desde o início?

Sim. Desde muito cedo percebi que era assim que queria contar a história. Algumas pessoas que leram o argumento diziam que o ato criminoso devia surgir no primeiro terço do filme, para depois se acompanharem as consequências, mas essa seria a forma tradicional de contar esta história. Não era isso que me interessava.

Queria antes avançar passo a passo, através de pequenos indícios, acompanhando a forma como uma pessoa de fora entra naquele ambiente e começa a perceber o que se passa. O público acompanha-a e, por vezes, percebe antes dela. Quis levá-la gradualmente para dentro daquele coro tóxico, marcado pela competição, inclusive dentro da própria família, e mostrar como aquelas raparigas, ainda tão novas, acabam por se sentir muito sozinhas.

Sendo baseado numa história real, falou com pessoas envolvidas no caso?

Sim. Fiz várias entrevistas de investigação com antigas integrantes do coro Bambini di Praga. Durante o julgamento, elas dividiram-se: algumas acusavam o maestro, outras defendiam-no e testemunharam a seu favor. Essa divisão intrigava-me muito. Queria perceber como era possível.

Foi muito forte falar com elas, porque compreendi como é difícil lidar com uma experiência destas. Aquelas mulheres não tiveram apenas experiências más naquele período. Também viveram momentos bonitos, anos formativos da adolescência, amizades, a criação de grande arte num coro de elite. Quando algo sombrio aparece nesse contexto, é difícil deitar tudo fora e dizer que foi apenas mau.

Acho que essa é uma das razões pelas quais estes casos demoram tanto tempo a vir à tona. Não é só a vítima que precisa de tempo; também as testemunhas, ou quem não sabia, precisam de tempo para aceitar que algo terrível aconteceu num lugar que, para elas, também teve beleza.

Também falou com psicólogos para compreender melhor esse processo?

Não. Não queria que o filme fosse um estudo de caso. Quando se trabalha dessa forma, é muito fácil cair no cliché ou não ser previsível. Para contar uma história, também é preciso encontrar momentos inesperados, que não sejam exatamente aquilo que o público espera.

Como trabalhou a recriação dos anos 1990 com a direção de fotografia e a direção de arte?

Eu, a diretora de arte e o diretor de fotografia somos mais ou menos da mesma geração. Em 1992, ano em que situei a história, eu tinha praticamente a idade da personagem principal, 12 ou 13 anos. Era, de certa forma, um mundo que conhecíamos bem.

Ainda assim, pensámos muito cuidadosamente em como criar esse universo. Decidimos filmar em 16mm porque dava ao filme uma sensação dos anos 1990 de forma muito natural. Os figurinos são bastante estilizados, mais frágeis e menos feios do que eram naquela altura, mas o 16 mm ajudou a tornar essa estilização mais discreta e natural.

Também quis trabalhar sempre o contraste entre o alto e o baixo, que é um dos motores do filme. E dei muita importância ao som: todas as cenas de canto foram gravadas ao vivo, sem playback. O coro do filme foi escolhido entre membros de um verdadeiro coro infantil checo de primeira linha, e a atriz principal vinha desse coro.

Como preparou essa cantora, que não era atriz, para um papel tão silencioso e expressivo?

Em primeiro lugar, ela é extremamente talentosa. Foi quase um milagre encontrá-la. Era muito natural diante da câmara e conseguia trabalhar muito com o rosto, por isso eu não precisava de muitos diálogos.

Falámos sobre o argumento, também com a atriz que interpreta a irmã, mas não lhe dava indicações muito específicas sobre como representar ou mexer o rosto. Ela tinha 13 anos, a mesma idade da personagem, e muito da personagem vinha também dessa idade.

Ao mesmo tempo, houve uma grande preocupação com a segurança no plateau. Trabalhámos com raparigas adolescentes num filme sobre trauma, por isso não queríamos traumatizar ninguém. Falei com os pais, pedi-lhes que lessem o argumento e percebessem o contexto, incluindo o impacto que o filme podia ter depois junto do público.

Tivemos uma coordenadora de intimidade, psicólogos e uma assistente especial para acompanhar as raparigas dentro e fora do plateau. As cenas mais difíceis foram pensadas com o diretor de fotografia para proteger as jovens atrizes, usando duplas e soluções de encenação sempre que necessário.

Foi difícil financiar um filme com este tema?

As instituições gostaram muito do argumento. O fundo audiovisual checo e a televisão checa entraram rapidamente. A dificuldade esteve no financiamento privado, porque, para o cinema checo, este é um filme de orçamento relativamente alto.

Muitas empresas tinham receio de se associar ao tema. Achavam-no controverso e não sabiam como seria o resultado final. Só mais tarde, quando viram partes do filme e perceberam a subtileza com que o tema era tratado, conseguimos avançar com mais 

Foi um projeto de paixão? Ou uma obsessão?

Quando decidimos fazer um filme, tem de ser por paixão. Não pode ser de outra forma. Para mim, foi realmente uma paixão e uma alegria fazer este filme.

É estranho dizê-lo num contexto destes, porque estamos a falar de um filme sobre abuso sexual. Mas, enquanto cineasta, houve muitas coisas muito fortes e importantes de filmar, como a música e todas as cenas ligadas ao coro. Quis torná-las o mais poderosas possível, e fiquei muito feliz por poder fazer este filme.

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