As consequências psicológicas de uma agressão sexual, nas suas múltiplas dimensões, têm sido propícias ao lançamento de diversos filmes, principalmente depois do movimento Me Too. Em Berlim, na competição ao Urso De Ouro, só para citar este ano, surgiu um dos filmes mais intensos sobre o tema, embora não olhe diretamente para a vítima de violação, mas para uma menina de 8 anos que assiste a tudo e tem dificuldade em perceber o que assistiu: Josephine. Neste Chicas Tristes, vencedor da secção Generations 14plus da Berlinale, o foco é novamente a vítima na sua transformação psicológica, mas também quem a acompanha neste processo de rutura emocional. 

Paula (Danara Alvarez) e La Maestra (Rocío Guzmán) são duas amigas de 16 anos que fazem parte de uma equipa mexicana de natação de elite, que treina para os Jogos Pan-Americanos Júnior no Brasil. Além disso, estudam juntas, partilham o grupo de amizades e são o que podemos chamar de melhores amigas, não havendo temas proibidos entre elas.

Na noite de ano novo, Paula tem a sua primeira experiência sexual com um colega nadador, mas se no início ela descreve a situação à amiga como “nada de especial”, partilhando que o sexo é demasiado sobrestimado, aos poucos a sua capa de normalidade vai revelando fissuras, expondo que na verdade o sexo não foi consentido e que foi violada. Este evento ocorre fora de campo, tendo acesso o espectador a ele pelo testemunho, fragmentado, de Paula.

O mundo complexo de nadadores de elite – cheios de códigos, regras e disciplina – é assim atravessado pela progressiva deterioração mental de Paula, que conta com ajuda da amiga que, por sua vez, sente uma enorme culpa na situação, pois foi ela que disse ao violador que a amiga tinha interesse nele.

Os filmes de agressão sexual e consentimento, na sua exploração do trauma, têm cimentado alguns arquétipos cinematográficos na exposição de estados interiores, frequentemente colocando barreiras entre vítima e a câmara (como vidros), ou então olhando para ela via espelhos, como se agora existisse uma barreira (um intermediário – o trauma) entre nós e as personagens. Chicas Tristes usa vários desses simbolismos para nos tentar levar para o interior ferido da protagonista, e para as tentativas da amiga de Paula para tornar pública a situação. É que se antes não havia tabus entre as duas amigas, esta violação, e o que fazer com ela, torna o diálogo do duo mais complexo e perro, entrando o filme no campo da amizade feminina (irremediavelmente) afetada por uma ação externa. Nesse aspeto, La Maestra funciona como contraponto emocional de Paula, sendo bastante mais expansiva, verbal e inclinada a agir quando percebe que algo está errado

A uma estetização por vezes demasiado simbólica dos estados interiores, como a maioria daquelas que usam a piscina e a água como fardo emocional a partir de certo ponto, as atrizes respondem com atuações realistas, entregando Tovar assim um filme coming-of-age repleto de pequenos gestos, conversas, danças, olhares e expressões, sempre com urgência temática, social e política, que nos acondicionam num mundo quebrado de forma subtil, mas sempre impactante.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
chicas-tristes-as-fraturas-invisiveisA uma estetização por vezes demasiado simbólica dos estados interiores, como a maioria daquelas que usam a piscina e a água como fardo emocional a partir de certo ponto, as atrizes respondem com atuações realistas