Muriel d’Ansembourg e como “Truly Naked” quebra a fantasia e mostra um trabalho mundano

(Fotos: Divulgação)

Usando o universo da pornografia como moldura para falar de intimidade, consentimento e identidade masculina num mundo saturado de imagens, Truly Naked é uma das grandes sensações da Berlinale. Mas, em vez de haver coragem para o colocar na competição ao Urso de Ouro, foi a secção Perspectives que o acolheu. E ainda bem.

Na estreia na realização de Muriel d’Ansembourg está Alec, um adolescente introvertido que cresceu nos bastidores do pequeno negócio pornográfico do pai, Dylan. Desde a morte da mãe, o jovem foi progressivamente absorvido pela dinâmica familiar: filma, monta e presencia cenas que moldaram a sua perceção do mundo. O lar é simultaneamente casa e estúdio, confundindo fronteiras entre espaço íntimo e espaço performativo. Quando, na escola, lhe pedem para realizar um trabalho e ele opta por estudar a adição à pornografia online, a professora atribui-lhe uma companheira de grupo: Nina, uma jovem feminista, assertiva, criada num ambiente onde as emoções são discutidas sem tabu. O encontro entre ambos expõe o contraste entre uma sexualidade aprendida através da mediação tecnológica e uma intimidade baseada na presença e no olhar.

O filme é sobre ligação. Não é sobre pornografia. A pornografia é apenas o enquadramento”, disse Muriel ao C7nema, no Palast da Berlinale. “A cena em que caminham um na direção do outro e pedem permissão para avançar é muito importante. Sei que muitos terapeutas fazem esse exercício com pacientes. É sobre perceber onde está o limite da outra pessoa, mas também sobre sentir. O Alec esconde-se atrás da câmara e está habituado a ver sexo através da pornografia, que não é vida real. Para a Nina, sexo é ligação e intimidade. Quando ela diz ‘olha para aqui’ [apontando para cima], está a dizer: ‘eu estou aqui’. O corpo é apenas parte dela. É também uma metáfora para o mundo atual, onde as pessoas olham para os ecrãs em vez de levantarem os olhos. É quase um apelo: levantem a cabeça.”

Sobre a relação entre pai e filho no filme, Muriel descreve-a como complexa, mas cheia de nuances: “O pai é divertido, carismático. Não julgo nenhuma personagem. Todas são humanas e cometem erros. O pai toma decisões erradas, mas percebemos de onde vêm. Ele também tem traumas e fragilidades. O objetivo era mostrar que a relação pode ser ao mesmo tempo afetuosa e pouco saudável“.

Com cenas profundamente gráficas, incluindo a de um polvo num set de filmagens de pornografia, Muriel tinha consciência quanto ao equilíbrio entre a importância do filme poder ser visto por jovens e o seu carácter explícito. Porém, a realizadora tomou a decisão que se ia abordar este tema, não o ia suavizar. “Quero que o público veja o que o protagonista vê através da câmara. Houve cenas ainda mais gráficas que acabaram por ser retiradas“, diz a britânica, admitindo que existe uma grande hipocrisia ao tópico: “Há crianças muito novas que já veem pornografia, mas depois não podem ver um filme que mostra o outro lado dessa realidade”. Alegando que Truly Naked quebra a fantasia e mostra que o trabalho é mundano, complicado, por vezes desconfortável, Muriel diz que enquanto não falarmos abertamente sobre sexualidade, os jovens continuarão a procurar respostas na pornografia”.

O Festival de Berlim termina a 22 de fevereiro.

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