Morreu Patricio Guzmán, mestre do documentário político chileno

Morreu, aos 85 anos, em Paris, o cineasta chileno Patricio Guzmán, nome maior do cinema chileno e uma das grandes figuras do documentário político latino-americano.

Durante quase seis décadas, Guzmán fez do Chile e das suas feridas políticas o foco do seu cinema, começando com a realização de filmes como O Primeiro Ano (1972), onde acompanhava os primeiros doze meses da presidência de Salvador Allende. Este filme chamou a atenção de Chris Marker e foi decisivo no apoio à divulgação internacional do seu trabalho, seguindo-se depois A Batalha do Chile, uma trilogia monumental que foi filmada durante o período que antecedeu o golpe militar de Augusto Pinochet, em 1973. A  primeira parte focava-se nas lutas políticas que antecederam uma primeira tentativa de golpe; a segunda olhava para a violência que escala até ao golpe; e a terceira sobre as várias organizações populares que surgem para lidar com as dificuldades com que a sociedade chilena se enfrentava. Registando a História enquanto esta acontecia, Guzman foi acompanhando assim a crescente tensão política e social. Depois do golpe, foi detido no Estádio Nacional de Santiago e acabou por partir para o exílio.

Esse afastamento nunca o separou verdadeiramente do Chile. Em filmes como O Caso Pinochet, Nostalgia da Luz, O Botão de Nácar e A Cordilheira dos Sonhos, continuou a investigar a ditadura, destacando a busca pelos desaparecidos e a memória coletiva chilena. A sua última longa-metragem, O Meu País Imaginário (2022), acompanhou a revolta social chilena de 2019. “Vivi, durante a época de Allende, uma revolução social. Era um país extraordinário, que estava a despertar e que, durante três anos, tentou fazer uma revolução que Pinochet interrompeu. Cinquenta anos depois, regressa um ar revolucionário. Mas não é a primeira vez que o Chile vive uma revolução. Pelo contrário, é a segunda. E esta é mais ampla. Não tem um partido político por trás. É uma revolução espontânea”, disse o cineasta ao C7nema em 2022, após a exibição do filme no Festival de Cannes. “As pessoas querem educação, alimentação, médicos, querem que as coisas funcionem bem. Mas existe pouca cultura política. Não estamos a viver uma época de grande cultura política em lado nenhum”.

Entre as principais distinções do cineasta contam-se o Urso de Prata de Melhor Argumento, atribuído em Berlim a O Botão de Nácar, o L’Œil d’or de Melhor Documentário, em Cannes, por A Cordilheira dos Sonhos, e o European Film Award de Melhor Documentário por Nostalgia da Luz.

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