Realizadora de “No Good Men” acredita que há homens bons: “Mas precisamos de mais”

(Fotos: Divulgação)

Num gesto de acolhimento da curadoria da Berlinale para com as suas descobertas, Tricia Tuttle, atual diretora artística do festival alemão, assumiu a moderação da conferência de imprensa de No Good Men, a longa-metragem afegã que abre a 76.ª edição do evento, com a sua protagonista (e também realizadora) Shahrbanoo Sadat no centro das atenções. A presença da programadora na sala incentivou perguntas sobre a escolha do filme.

“Gostamos de pontos de vista políticos, mas o que nos levou a selecionar este filme foi a sua capacidade de emocionar”, afirmou Tricia, depois de definir a narrativa de Shahrbanoo como uma mistura de comédia, romance, guerra e jornalismo. “É quase a invenção de um novo género.”

Revelada ao circuito cinéfilo internacional pela Quinzena de Cannes, onde apresentou Wolf and Sheep (2016) e The Orphanage (2019), Shahrbanoo Sadat protagoniza No Good Men ao narrar os conflitos de uma operadora de câmara em Cabul perante um mundo marcado pelo sexismo.

“A única coisa boa no patriarcado é o facto de tornar as mulheres mais fortes”, declarou a cineasta, antes de explicar ao C7nema na conferência de imprensa que o seu olhar sobre o jornalismo televisibo não está preso a teses previamente delineadas. “Não se trata de um filme panfletário, mas de um registo de observações que fiz sobre o universo do jornalismo, consciente de que as personagens pertencem à classe média e são marcadas por um espírito de ‘americanização’ nas suas escolhas.” 

Cena de “No Good Men” – Crédito: Virginie Surdej

A ação decorre em 2021, quando a protagonista, Naru (a própria cineasta), luta pela custódia do filho de três anos, Liam, fã de leões — sobretudo de The Lion King, da Disney. Depois de abandonar o marido infiel, convenceu-se de que não existem homens bons no seu país. As suas convicções são postas à prova quando Qodrat, o jornalista mais influente da Kabul TV, lhe propõe uma oportunidade profissional determinante. À medida que ambos percorrem a cidade, a reportar os derradeiros dias de liberdade de uma região marcada pelos Talibãs, Naru começa a questionar as suas descrenças.

“Fiz este filme pelos homens, porque acredito que existem figuras masculinas boas. Só precisamos de mais, de outras mais”, afirma Shahrbanoo. “Chorei muito a desenvolver este argumento, não sei se pela sua natureza romântica. Queria conhecer verdadeiramente a vida das personagens.”

Antes de revelar os bastidores do telejornalismo no Afeganistão ao público da Berlinale, a cineasta lamentou a fragilidade estrutural do cinema no seu país. “Não temos uma indústria organizada. Em geral, o que se filma são registos dos nossos conflitos”, explica. “Quando alguém vem de fora filmar, é muitas vezes alguém que não nos conhece e quer falar apenas de guerra.”

A Berlinale decorre até ao próximo dia 22.

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