Jurado da Berlinale, Gianfranco Rosi leva ‘Notturno’ à MUBI

(Fotos: Divulgação)

Para provar que “chegou chegando”, gíria brasileira para definir alguém que se destaca logo no arranca de uma atividade, a Berlinale 2021 abriu os seus trabalhos, na disputa pelo Urso de Ouro, com três histórias de afeto configuradas como ímãs de aplausos: “Ich bin dein Mensch” (“I Am Your Man”), de Maria Schrader; “Inteurodeoksyeon” (“Introduction”), de Hong Sang-soo; e “Memory Box”, de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige.

Para os jurados será um prato cheio, até para aquele que está mais familiarizado com as estratégias do Real do que da ficção, como é o italiano da Eritreia Gianfranco Rosi. Hoje, o tema não é apenas ser jurado do evento germânico, mas por ter seu filme mais recente, “Notturno” – uma narrativa de observação de vivências colhidas em três anos em zonas de guerra no Oriente Médio, indicada ao Leão de Ouro – escolhido para estrear na MUBI (Brasil) esta sexta-feira. Há quem aposte firme na escolha desse documentário para o Oscar, surfando na visibilidade desse cineasta nas decisões dos prémios a atribuir em Berlim. 

Obrigada a mudar seu calendário em 2021, por conta da pandemia, dividindo sua 71ª edição em duas, sendo a primeira parte, de 1 a 5 de março, já com a disputa pelas estatuetas a Berlinale quis assegurar para si uma seleção classe AA. Para isso, o seu diretor artístico, Carlo Chatrian, garantiu entre os jurados uma equipa de peso de cineastas. São três mulheres e três homens que já conquistaram o troféu mais disputado do festival no passado. Julgarão os filmes: Jasmila Žbanić, da Bósnia, “a” vencedora de 2006 com “Grbavica”; Mohammad Rasoulof, do Irão, laureado no ano passado com “O Mal Não Existe” (“There is No Evil”, 2020); Ildikó Enyedi, da Hungria, vencedora de 2017 com “Corpo e Alma” (“On Body and Soul”); Nadav Lapid, de Israel, responsável por “Sinónimos” (“Synonymes”), de 2019; a artista plástica e cineasta Adina Pintilie, da Romênia, que dividiu opiniões, em 2018 com “Não Me Toques” (“Touch Me Not”); e Giafranco.

De todos os escolhidos, o documentarista costuma ser o mais polémico, dado o explosivo teor das suas declarações políticas. Em 2013, ganhou o Leão dourado veneziano com “Sacro GRA” e, em 2016, saiu da Alemanha com o Urso de Ouro por “Fogo no Mar”.

O documentário é um tipo de narrativa que nasce do inesperado: ao ligar a câmara, você não sabe o que terá, mas vai surgir algo e essa coisa vai necessitar de uma linguagem ajustada a ela. E esse ajuste é afinado pelo Tempo”, disse Rosi ao C7nema quando as filmagens de “Notturno” começaram, logo após sua consagração em Berlim com “Fogo no Mar”.

Com imagens capturadas nas fronteiras do Irão, Curdistão, Síria e Líbano, o seu mais recente filme retrata a luta quotidiana das pessoas que tentam reconstruir suas vidas em meio aos efeitos negativos de guerras civis, ditaduras, invasões estrangeiras, mediando com o Estado Islâmico uma relação com a fé e com a política.

A ideia de que faço ‘filme político’ é um rótulo que esvazia a poética da observação e a minha relação com as dinâmicas das relações sociais. Um rótulo que impõe à não ficção a obrigação de ser um manifesto. Discordo. O documentário é um espaço de experimentação dos mais ricos como exercícios de linguagem”, disse Rosi na Berlinale. “Essa experimentação passa de potência a ato com o grau de liberdade com que é trabalhada. Tenho conexão de berço com a Itália de Rossellini, uma Itália Neorrealista, portanto, híbrida na relação entre fato e fábula. Só que Rossellini só me vale até o momento em que eu chego na arena de filmagem, ponho minha câmara para rodar e me deixo invadir pelo inusitado”.

Fora “Notturno”, a MUBI abre-se para Gianfranco, exibindo dele pérolas como “Tanti Futuri Possibili” (2012), o já citado “Sacro GRA” e “Below Sea Level” (2008).

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