Death Has No Master: Asia Argento — “Prefiro fazer filmes como este a fazer filmes comerciais”

(Fotos: Divulgação)

Presente na Quinzena dos Cineastas, Death Has No Master (La muerte no tiene dueño) marcou o regresso de Jorge Thielen Armand à Venezuela para filmar uma herança envenenada. Paralelamente, marca também o regresso de Asia Argento ao cinema e a Cannes, onde há oito anos protagonizou um discurso em palco que a levou a pensar que estaria para sempre afastada do certame. Não está, como se viu nesta edição onde regressou à Croisette sem grandes problemas. 

No filme ela é Caro, que viaja até á Venezuela para vender a plantação de cacau do pai recém-falecido, mas encontra a antiga mansão familiar ocupada pelos ex-funcionários da propriedade, determinados a permanecer ali.

Entre o thriller psicológico, o horror colonial e pesadelo familiar, o filme transforma a disputa por uma casa num confronto com uma violência enterrada na terra, na memória e nas relações de classe. Argento, que representa em espanhol e se isolou durante a rodagem na Venezuela, falou ao C7nema sobre colonialismo, herança, isolamento e a sensação de regressar ao festival com um filme que a obrigou “a enlouquecer um pouco” para encontrar a personagem.

O seu papel é bastante forte e sua personagem vive uma situação difícil, consegue aquilo que queria, mas depois percebe que não era como imaginava. Além disso, teve de representar em espanhol. O que a atraiu neste papel e qual foi o maior desafio?

Houve muitos desafios. Um deles foi a língua. Eu não falo espanhol, mas o Jorge estava confiante de que eu conseguiria fazê-lo. Comecei a trabalhar com ele na personagem e no filme seis meses antes.

Pensei em ler livros e estudar espanhol. Depois ele mudou o guião e tudo o que eu tinha aprendido teve de ser retirado. Mas o mais importante era chegar lá.

Achei que era um filme político, e é, mas só quando vi o filme percebi que também era um thriller, um filme de terror, paranormal e psicológico. Não fazia ideia, porque estava completamente imersa no que estava a fazer.

Percebi rapidamente que não era uma personagem comum. Tinha de ser credível, de me enlouquecer um pouco para a interpretar. Vivi dois meses e meio na Venezuela: um mês de ensaios e um mês de filmagens. Foi uma experiência incrível.

Senti aquilo que a personagem sentia: estar isolada, sozinha, sem falar a língua. Isolei-me muito. Quase nunca saía do quarto do hotel, que era bastante escuro. Lia apenas o guião. Foi o meu único livro. Li-o cerca de 400 vezes.

Enlouqueci-me um pouco, mesmo no plateau. Quando o filme começou, deixei de falar com os atores principais, com o meu adversário. Foi muito doloroso.

Falando de isolamento: mesmo quando a sua personagem está nos lugares de origem, sente-se isolada. Esse sentimento era central para si?

Sim. Esse sentimento de isolamento torna-se ainda mais evidente quando alguém não tem origem. Ela regressa à casa da família pensando que pode encontrar as suas raízes, mas sente-se ainda mais estrangeira no lugar de onde supostamente vem. Não tem realmente lugar em lado nenhum.

Há um desespero nisso. Ela procura respostas, claro, mas só encontra mais perguntas. O espírito dela está completamente partido.

Não se diz muito sobre o passado ou a vida atual dela, mas sente-se. É alguém sem família, sem trabalho, alguém à deriva.

Asia Argento em Cannes | Foto por C7nema

Quando ela regressa, traz também um olhar colonial. Como trabalhou essa dimensão, até nos figurinos: o chapéu, os sapatos, tudo?

Foi um trabalho com a figurinista, Maricel, e comigo. O chapéu era muito importante. Fomos àquele lugar e percebemos que não havia outra coisa a fazer. É engraçado, é ridículo, a forma como ela quer parecer-se com o pai. Quer ser incrível com aquele chapéu. A polícia pergunta-lhe quem é que ela pensa que é com aquelas roupas. Faltava o chicote, que ela até tem.

Tudo aquilo que ela tenta fazer com aquele visual não funciona. Mesmo na tentativa de se misturar com os outros, de fazer parte da cultura, ela não consegue. Não encontra o seu lugar no mundo. É terrível sentir isso. Tive mesmo de amar esta personagem, mesmo com aspetos que detesto. Antes de ir para lá, não percebia que ela carrega esse ADN dos proprietários de escravos que viveram ali. Não sei se teria aceitado o papel se tivesse percebido isso logo.

Ela representa tudo aquilo de que não gosto nas pessoas. Mas tive de a amar para lhe dar vida.

O filme também fala de uma relação entre pai e filha. Falando inevitavelmente do seu pai, o que mais valoriza naquilo que ele lhe transmitiu?

As pessoas imaginam que ele me levava para as filmagens quando eu era muito pequena.

Mas isso é verdade, não é?

É verdade, mas não tão pequena como dizem. Levou-me quando eu tinha dez anos. Acho que só mais tarde compreendi que carrego uma grande herança do meu pai. Sinto sempre a pressão de viver com essa grande herança e com este grande realizador, chamado génio.

Mas, neste filme, o pai é uma personagem cheia de ódio, que lhe batia. Não é o meu pai. É uma personagem. As pessoas perguntaram-me se não era sobre mim. Nem sempre os filmes refletem a vida. É uma personagem, algo que criei com o meu pai.

Pensei mais nos filmes. Essa é a minha herança: a pressão de estar na sombra de uma figura, ou de um filme, como todos nós. Ter esse ADN.

O filme transporta muitas situações de violência na Venezuela. Sentiu essa violência no país? Como vê essa situação?

Antes de ir, toda a gente me dizia que era o lugar mais violento da Terra: gangues, drogas… Nunca me senti tão segura na minha vida.

Lembro-me de andar à noite. Ninguém me dizia nada. Nenhum homem, nenhuma violência, nenhuma droga. Fui sozinha a Caracas, fui a Puerto Cabello. Percebo que essas coisas possam acontecer, mas não foi essa a minha experiência.

Quanto à política, é muito complicado. Não tenho o direito de dizer ou julgar. Só desejo que as pessoas vivam melhor. Tenho ideias de onde venho, mas isso não tem nada a ver com aquilo que esse país vive. Não tenho o direito de julgar.

Também trabalhou com não-atores, pessoas de Puerto Cabello. Como foi essa colaboração?

Foi muito tocante. Ajudou-me muito. Antes de mais, ninguém sabia quem eu era. Trataram-me como uma deles. Isso foi muito importante para mim. Eu já estava alienada, mas teria sido ainda mais alienante se me tratassem como uma atriz.

Trataram-me com gentileza e naturalidade. Isso ajudou-me a representar de forma mais natural. Estavam sempre cheios de surpresas. A minha parceira de cena era incrível. Era uma atriz natural e fiquei muito impressionada. Foi uma boa escolha.

Eles trabalharam muito antes do filme, durante um mês, com um coach. Antes de cada sessão, meditávamos. Foi uma grande oportunidade para mim como atriz. Nunca tinha tido essa possibilidade.

Porque decidiu isolar-se tanto para construir esta interpretação? Seria diferente, ou melhor, se não o tivesse feito?

Vou contar a famosa história de Laurence Olivier e Dustin Hoffman em Marathon Man. Dustin Hoffman corria três quarteirões antes de começar a cena. Laurence Olivier, vindo da escola britânica, dizia: “Porque não representar simplesmente?”

Gostava de ser Laurence Olivier e apenas representar, mas tenho de correr três quarteirões para ser incrível. Não é mau. Acho que é a minha escola.

Falou das suas origens. Viveu em vários lugares, viajou muito desde jovem. Onde se sente mais perto de casa? Onde é a sua casa?

O meu apartamento em Roma. Não saio muito. Tenho o meu cão e as minhas plantas. Quando trabalho, sinto-me em casa. Esse é o meu trabalho. Faço isto desde os nove anos. Foi o que cultivei e fiz na vida. Quando estou no plateau, os meus ritmos biológicos aceleram. Sinto-me no lugar certo.

Começou muito jovem. Sente que perdeu alguma coisa?

Não sei. Não tive uma infância normal.

Disse que não tinha ideia do final do filme. Quando o viu pela primeira vez com o público, quais foram as suas impressões?

Fiquei feliz por o ter visto antes, senão teria desmaiado. Fiquei muito emocionada. Chorei.

Consegui distanciar-me. Não estava propriamente orgulhosa, mas pensei: fiz o meu melhor. Isso é incrível para mim.

Adoro a estética. Se eu fosse espectadora, este seria o tipo de filme que gostaria de ver. É tão bonito: a fotografia, a música. É um bom filme.

Jorge Thielen Armand é um realizador muito jovem, com apenas três filmes. Que tipo de realizador é? O que encontrou de diferente nele?

É muito poético. É isso que gosto na escrita dele, no projeto final. Sabe realmente o que quer.

Às vezes perguntava-me: porque estamos a fazer isto? E ele respondia: “Não, não quero ver isso.” E tinha sempre razão. É um autor.

Se perguntamos se é verde ou azul, ele responde azul, porque já o viu. Mostra-nos o melhor caminho para a personagem e para o filme. É um dos melhores, acho eu.

A sua personagem, tal como as de filmes anteriores, pode ser muito silenciosa e agressiva. Isso interessa-lhe quando lê um guião?

Sim, é sempre importante haver dualidade. Tento encontrar muitos ângulos, muitos aspetos. Acho que ela tem mais do que dois.

É uma personalidade fascinante, com reações inevitáveis. Sempre me fascinaram personagens com profundidade. Talvez porque eu própria seja assim, não sei.

Fui muito agressiva no passado. Agora já não preciso de me proteger tanto. Alguém agressivo está em modo de combate, sempre com medo de ser atacado. Pessoalmente, estou melhor agora. Mas a minha personalidade continua a ter muita profundidade.

O que a ajudou a mudar?

Tenho 50 anos.

Está em Cannes, um grande festival. Começou a vir cá aos 16 anos. O que sente agora?

Uma grande gratidão. Achei que nunca voltaria aqui. Felizmente, não foi o caso. Volto por causa do filme. Acho que isso me ajudou muito.

É uma grande gratidão. É como se tivesse feito a coisa certa. É bom ter 50 anos.

Disse que aceitou o papel sem saber exatamente que filme seria. Prefere correr esses riscos?

Prefiro fazer filmes como este a fazer filmes comerciais. Sinto-me sempre mais em casa. É a minha herança.

Isso mudou a sua apreciação pelos papéis?

Não aceitaria hoje muitos dos papéis físicos que fiz no passado. Não me sentiria confortável agora. Estou feliz com o que fiz quando era mais nova. Não tenho medo, mas agora preocupo-me mais.

Qual foi o papel que mais a marcou?

O próximo.

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