«Sacro GRA» por Nuno Miguel Pereira

(Fotos: Divulgação)

Sacro Gra, um nome que em Italiano nos parece tão bonito e romântico e que em Portugal seria o mesmo que criar um filme chamado “A2”, ou IC19. No entanto, e percebe-se isso desde o início, mal nos avisam que Sacro Gra é uma autoestrada que atravessa Roma e a une a vários pontos que sabemos que o filme não será sobre uma autoestrada, mas sobre os vários “sabores” de uma cidade, que é mais conhecida pelos seus pontos turísticos do que pelo seu povo.

Aqui, Sacro Gra servirá de metáfora e será ela que nos levará às diferentes paisagens contrastantes da cidade de Roma. Para isso são nos contadas várias histórias, num estilo narrativo de documentário sem intervenção que o guie ou lhe dê estrutura. A estrutura e o rumo da obra são dados através da história dos seus habitantes. Neste caso, o povo de Roma: havendo espaço para dar voz aqueles que, normalmente, não a têm: desde as prostitutas, ao especialista em palmeiras, passando pelo bombeiro e ao ator de fotonovela.

Enquanto isso, vão sendo filmadas paisagens – feias ou bonitas, é discutível – que, acima de tudo são sinceras; mostrando o lado mais “lunar” de Roma. Em suma: mostram o verdadeiro, servindo como uma espécie de carta de amor à população romana.

Certo é que o facto de ser não-interventivo e de não ter um estrutura fixa faz com que nos percamos, com tudo aquilo que isso tem de bom e mau. A verdade é que nunca sabemos se estamos no início, a meio, ou no fim do filme, sendo adicionadas personagens novas em vários momentos.

Há também espaço para a genuína graça inusitada. Como quando o homem das palmeiras, que também é especialista em todo o género de insetos que as destroem, explica os rituais de orgia que o caruncho tem. Aliás, são esses contrastes todos que tornam Sacro Gra um filme bastante vivo, apesar de poder indicar o contrário, devido à sua estrutura.
O único ponto negativo é por ventura e, apesar do conceito subjacente potencialmente fascinante, sentirmos que o documentário vai a muitos lados, mas acaba com a sensação que não foi a nenhum lado concretamente. Ao retratar tantas realidades dentro da cidade, não distribuiu a importância equitativamente pelas mesmas, tornando umas mais superficiais que outras.

Todavia, o que se nota é que o filme de Gianfranco Rosi é ambicioso e feito com e por amor. O povo de Roma ficou com certeza contente e o Leão de Ouro, que já ganhou, comprova que é um filme que vale a pena ser visto.

O Melhor: Os contrastes das paisagens e dos relatos
O pior: Não ir concretamente a lado nenhum


Nuno Miguel Pereira

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