Conhecida por encarnar no cinema personagens de grande intensidade física e emocional, como se viu em A Vida de Adèle (2013), Sybil (2019) ou Bem-Vindos a Bordo (2021), Adèle Exarchopoulos surge este ano em Cannes com dois filmes, Garance e Mariage au bout de l’orange. Neste último, assinado por Christophe Honoré, ela é Claudie, uma mulher com uma tristeza antiga que a acompanha e que agora é despertada quando o marido, de quem está separada, aparece num casamento em que a festa esconde a violência íntima das famílias e dos traumas que se transmitem de geração em geração.
Numa longa conversa com o C7nema, que será publicada integralmente mais à frente, Adèle falou da sua participação no filme inspirado na própria família de Honoré, tocando em temas como a depressão, a nostalgia e a liberdade feminina. E fez também uma radiografia à forma como o realizador transformou um argumento de índole teatral numa experiência coletiva, caótica e profundamente humana de cinema.
Antes de mais, a sua personagem está muito deprimida. O casamento acabou, ela está noutra boda, mas carrega uma tristeza enorme. Como sentiu essa tristeza?
Acho que Claudie podia ser eu. A depressão dela não vem do nada. Para mim, ela é uma daquelas mulheres que tinham uma grande forma de liberdade e de desejo, fortes demais para a época, e que rapidamente foram vistas como riscos perigosos para a sociedade.
Há muitos exemplos assim, até de delírio feminino em massa, porque não estavam nos códigos, nas normas. É como se eu a conhecesse, ou pudesse ser ela.
Houve também um livro que me inspirou muito, que li nesse mesmo ano: Mon vrai nom est Elisabeth, de Adèle Yon, que fala exatamente disso: mulheres consideradas loucas e colocadas em hospitais psiquiátricos apenas porque gostavam da vida, gostavam de dormir com os maridos, gostavam de amar. No fundo, é algo muito político.
Foi bastante fácil projetar-me nisso. E acho que estamos apenas no início da emancipação dos géneros.
O argumento parecia abrir muito espaço à improvisação. Como foi entrar nesse universo de Christophe Honoré?
Liguei ao Vincent Lacoste, que é meu amigo, e disse-lhe: “Talvez eu seja estúpida, mas não percebo tudo. Explica-me.” Ele respondeu: “Segue-o. Ele é um grande realizador.”
Eu conhecia, claro, o cinema do Christophe. Sabia como ele tinha revolucionado a comédia musical com Canções de Amor (2007), e como vimos Léa Seydoux emergir em La Belle Personne (2008). Mas o guião tinha algo muito teatral, muitos comentários e poucos diálogos, e eu pensava: para onde vou?
Não fiquei desiludida. Ele conseguiu criar um caos com uma trupe. Filmámos em película, ele tinha um monitor só para si, mas eu surpreendia-me por vê-lo muitas vezes não olhar para o monitor, mas para nós.
Havia cenas em que ele dizia “corta” e a cena continuava, porque ainda estávamos dentro daquele casamento, que parecia eterno. Todas as noites estávamos no casamento. Foi uma viagem para todos nós.
Diria que este filme é bastante nostálgico. A nostalgia é algo específico em si?
Acho a nostalgia muito misteriosa. Sou uma pessoa muito nostálgica. Tenho sempre a sensação de estar a regressar de um verão fabuloso, de uma ligação muito forte, de uma memória poderosíssima, e de que nunca vou encontrar aquilo outra vez.
Não gosto de ver o nascer do sol depois de uma noite fora. Não gosto do fim. Sei que a vida é um eterno recomeço, mas tenho a nostalgia muito enraizada em mim. Não sei de onde vem. Acho que é uma questão de temperamento, algo que não escolhemos.
Gostava de me libertar disso, porque a nostalgia também nos impede de estar presentes. Sou muito mais nostálgica do que ansiosa em relação ao futuro.
Este ano trabalhou com dois realizadores. Sente que esses dois filmes lhe deram um leque amplo de experiências?
Sinto-me sortuda e abençoada. Os dois filmes estão ligados. Fiz Garance entre setembro e dezembro, e depois, de fevereiro a março, fiz Mariage au bout de l’orange.
Em Garance havia uma forma de solidão. É uma pessoa muito nómada, e o alcoolismo isola-a muito. Já o filme do Christophe é extremamente coral, coletivo, de trupe. Os dois serviram-me muito, também intimamente.
Descobriu alguma coisa nova sobre si?
Que tenho um reservatório de lágrimas bastante inesgotável. E que continuo a ter muito medo antes de começar um filme.
Houve algum trabalho específico para criar o espírito de grupo do filme?
Não sei se isso se pode criar. Também é o papel do chefe de equipa, que é o realizador.
Tivemos dois dias inteiros para aprender a dançar, valsas da época. Parece mentira, porque dançamos como tontos, mas aprendemos mesmo. Estar colada a alguém que não conhecemos, sentir o cheiro dessa pessoa, liberta qualquer coisa.
Depois fizemos improvisações uns à frente dos outros, o que é extremamente vertiginoso e desconfortável. A Prune [Bozo] cantou Claude François à nossa frente, e logo ali nasceu algo de encorajamento. Tudo aconteceu naturalmente. Apanhávamos todos o comboio muito cedo para Angers, onde filmávamos durante a semana, e voltávamos aos fins de semana porque muitos de nós temos família. Desde o início da viagem, as pessoas sentavam-se juntas, acabávamos de pé, a conversar.
Como o tema do filme é a família, a verdade da família, a crueldade da família, começámos rapidamente a falar de coisas pessoais. Fazer um filme também é isso: aceitar que pessoas entrem na nossa vida e a perturbem. Não sabemos se ficam para sempre, mas, durante um momento preciso, contam. Podemos dizer-lhes coisas que não dizemos no quotidiano.
Os encontros familiares podem ser trágicos, cómicos, estranhos. Gosta desses momentos em que as pessoas se reúnem, discutem, se conhecem melhor?
Tenho a sorte de ter uma família muito saudável. Os meus pais não trabalham no Cinema. A minha mãe é enfermeira. O meu pai tem dois trabalhos, não quer parar: é guitarrista e trabalha numa sala de espetáculos, entre outras coisas, com pipocas.
Os meus dois irmãos são sete anos mais novos do que eu, mas somos muito próximos. Vieram a Garance e acho que aí perceberam que eu estava no Cinema. Antes olhavam para mim, depois para o ecrã, como se estivessem a tentar perceber.
A minha família é simples. Não falamos muito de Cinema. Vamos de férias juntos todos os verões. E são pessoas que eu teria escolhido, mesmo que não fossem minha família. Isso é raro. Muitas vezes, a família é um fardo: temos de amar pessoas que não escolhemos.
Também há algo perigoso na família: perdoamo-nos sempre, mesmo coisas cruéis. Sei que já fui injusta com os meus irmãos. Mas há também uma enorme cumplicidade, como rir de repente num funeral ou partilhar um embaraço.
O que pensa da instituição do casamento? É romântica ou ultrapassada?
É muito íntimo. Gosto do símbolo, do lado solene. Tive um filho aos 22 anos e agora, ao crescer, penso que talvez um dia o meu filho esteja no seu casamento. Isso toca-me: imaginar que ele teria de fazer uma declaração num momento íntimo, solene e poderoso.
Mas o casamento não é um objetivo em si. Para mim, a família é sagrada, não necessariamente o casamento.

