Herdeira de um realismo social britânico que cineastas como Ken Loach, primeiro, ou Andrea Arnold, depois, cimentaram, Clio Barnard tem frequentemente olhado para comunidades marginalizadas, famílias fragmentadas e personagens emocionalmente isoladas para construir um corpo de obra que já podemos designar como bem consistente. No híbrido The Arbor (2010), ela já explorava a fronteira entre realidade e encenação que viria a marcar o seu cinema, enquanto em The Selfish Giant (2013) transformava um drama social sobre dois adolescentes excluídos num conto trágico e quase poético sobre amizade e exploração.
Anos depois, Dark River (2017) e Ali & Ava (2021) sublinham a grande diferença entre Bernard e Loach, porque entretanto Arnold também ela fez uma inflexão pelo realismo, de toda mágica, com Bird. A verdade é que Bernard tem perante os seus objetos uma abordagem onde o naturalismo convive com dispositivos formais altamente construídos, moldando frequentemente os seus filmes de forma fabular.
Isso mesmo vê-se em I See Buildings Fall Like Lightning, uma adaptação de um livro de 2024 de Keiran Goddard, que acompanha um grupo de amigos de infância de Birmingham, agora à beira dos 30 anos, cujas relações começam a sofrer erosão. O livro em questão juntava cinco monólogos que Clio Bernard transforma numa dinâmica história de intersecção entre amizades antigas confrontadas com a idade adulta e a precariedade, tanto económica como emocional.
Os cinco amigos são Rian (Joe Cole), Conor (Daryl McCormack), Patrick (Anthony Boyle), Oli (Jay Lycurgo) e Shiv (Lola Petticrew), todos eles a lidarem com a vida com as armas que têm. Nesse grupo, Rian é o único que conseguiu saltar de classe social, conseguindo um trabalho no mundo da finança, mas ainda assim ele continua a regressar a casa, ou então os amigos vão ter com ele a Londres, preservando a união do grupo. Já Conor tenta manter o negócio de construção herdado do pai, mas encontra-se sob forte pressão financeira e cada vez mais endividado, sobretudo quando surge a possibilidade de investir num novo projeto imobiliário. Temos ainda o casal Patrick e Shiv, namorados desde a juventude, vivendo uma relação estável e afetuosa no meio das dificuldades económicas (ele trabalha como entregador de comida). Finalmente temos Oli, um pequeno dealer de droga sem grande ambição criminosa, meio perdido e sem direção, que acaba por encontrar algum propósito ao adotar um cão abandonado.
Barnard filma Birmingham como um território emocionalmente desgastado, onde cada espaço parece carregar o peso das escolhas falhadas, das frustrações e da ameaça constante da gentrificação. Urbanisticamente, predominam bairros de baixa volumetria e antigas casas operárias, em claro contraste com a Londres onde Rian trabalha (ou colabora, consoante a visão liberal da coisa): uma cidade regulada e desenhada em função dos serviços financeiros, feita de torres imponentes e apartamentos criteriosamente decorados, mas emocionalmente frios e impessoais. Já os interiores das casas dos amigos em Birmingham preservam um calor caótico e profundamente humano, marcados pela desordem, pelo ruído e pela sensação de vidas realmente habitadas.
Apostando numa encenação discreta, de câmara sempre próxima das personagens e pronta para os close ups, sem recorrer a dramatizações excessivas, a cineasta permite que os atores encontrem a espontaneidade dos diálogos e nos pequenos gestos e discussões do quotidiano, com a própria fisicalidade dos atores a falar de cada um deles, do que são e o que fazem.
É também através desse ambiente que se constrói o universo emocional dessas mesmas personagens, com as festas, visitas ao pub e discotecas, além da música urbana eletrónica, a funcionarem como extensão afetiva, tanto na entrega de amor e ternura no grupo, como nos seus gritos e explosões.
O cinema de Barnard distingue-se pela capacidade de encontrar ternura, além de uma musicalidade e humanidade em territórios frequentemente associados à dureza e ao abandono. I See Buildings Fall Like Lightning vagueia por esse território, sempre apoiado por interpretações seguras e o lançamento de farpas ao capitalismo selvagem e aos desafios da juventude na modernidade.




















