Olivia de Havilland: o adeus à última grande estrela da velha Hollywood

Estrela da velha Hollywood, Olivia contribuiu para que os atores deixassem de ser uma "propriedade" dos estúdios

(Fotos: Divulgação)

Vinte cinco dias após completar os 104 anos, a atriz Olivia de Havilland, considerada a última grande estrela da velha Hollywood, faleceu na sua casa em Paris.

Mais que os cinquenta filmes em que participou, onde consta o clássico “E Tudo O Vento Levou“, a irmã mais velha de Joan Fontaine ficou definitivamente marcada pela luta impiedosa que travou na década de 1940 contra o sistema contratual dos atores, entrando em litígio com a Warner Bros. e derrotando a omnipotência dos estúdios de Hollywood. 

Frustrada por estes lhe oferecerem apenas personagens estereotipados da “donzela em perigo“, a atriz é suspensa devido a inúmeras recusas de papéis. Ligada ao estúdio por um período de sete anos, viu a suspensão de que foi alvo por recusas de papéis ser transformado numa penalização temporal que seria acrescentada aos anos originais do contrato.

Saiu vitoriosa – ao contrário de outros atores que tentaram o mesmo – e durante muitos anos o seu nome (a decisão/lei Havilland) ficou associada às novas regras contratuais dos atores com o velho sistema de estúdios. “Disseram-me que nunca mais trabalharia se perdesse ou ganhasse. Quando venci, eles ficaram muito impressionados e não guardaram rancor“, disse Olivia em entrevista.

Nascida em Tóquio, filha de pais britânicos, Olivia e Joan seguiram para a Califórnia com a mãe,  Lilian Augusta Ruse, após esta se separar do marido. Ela estava ainda na escola quando participou na peça “Sonho de uma noite de verão” e foi vista por Max Reinhardt, que impressionado com os seus dotes a convidaria para uma adaptação da peça ao grande ecrã, em 1935, através da Warner Bros.

Olivia assinaria um contrato de 7 anos e participaria imediatamente em três filmes:”The Irish in Us” (1935), “Alibi Ike” (1935) e “O Capitão Blood” (1935), este último onde contracenaria com  Errol Flynn  – com quem colaboraria num total de oito filmes. 

Em 1939, a Warner Bros. “empresta-a” (o termo aqui é importante para perceber como os atores eram propriedades) a David O. Selznick para o clássico “E Tudo o Vento Levou“(1939). Interpretando Melanie Hamilton, Olivia recebeu a sua primeira nomeação ao Oscar de Melhor Atriz Secundária, mas perdeu para uma das suas colegas no filme, Hattie McDaniel, a primeira negra a ser galardoada com uma estatueta pela Academia de Hollywood.

Depois do sucesso no filme, regressou à Warner Bros. e em 1941 teve a sua segunda nomeação aos Oscars (Melhor Atriz) por “A Minha História” (1941). Perdeu mais uma vez a estatueta, desta vez para a sua irmã Joan (Suspeita, 1941). Depois destes dois triunfos e desaires simultâneos, Olivia exige papéis melhores à Warner Bros, que em resposta a suspende por seis meses, iniciando o processo litigioso.

Findo este longo processo judicial, regressou ao grande ecrã em 1946, surgindo em quatro filmes, um dos quais que lhe rendeu o Oscar que há tanto tempo escapava: “Lágrimas de Mãe” (1946). Seguiram-se obras como “O Fosso das Víboras” (1948) e “A Herdeira” (1949), que lhe valeram novas nomeações. Após um hiato de três anos, Olivia regressa com “A Minha Prima Raquel” (1952) e progressivamente vai deixando o grande ecrã, sendo mais vista na Broadway e em alguns programas de televisão. Para isso também influiu a sua mudança para a Europa em 1955, logo após se casar (segundo matrimónio) com Pierre Galante, editor da Paris Match. Ainda assim, deu nas vistas em “Uma Luz na Praça” (1962) e “Os Bárbaros do Século XX” (1964), para além de ter sido a primeira mulher a liderar o júri do Festival de Cannes em 1965.

A vida de Olivia ficou ainda marcada pelo alegado relacionamento turbulento com Joan Fontaine, tendo esta escrito nas suas memórias que a sua irmã mais velha tinha sido fisicamente, psicologicamente e emocionalmente abusiva quando eram jovens. Desse feudo, ficou na retina a foto icónica de Joan preparada para cumprimentar Olivia nos bastidores, após a primeira vitória nos Oscars. Olivia ignora-a, supostamente porque não gostou de um comentário que Joan fez do marido de Olivia, Marcus Goodrich. Porém, no final da vida, Fontaine concedeu uma entrevista na qual negava qualquer reivindicação de um afastamento da sua irmã, declarando mesmo: “Eu e a Olivia nunca tivemos uma luta. Nunca tivemos nenhuma insatisfação. Nunca tivemos palavras duras. Tudo isso é invenção da imprensa“.

Recentemente, o nome de Havilland circulou igualmente pelas páginas dos jornais pois colocou uma acção em tribunal contra o canal FX e a Ryan Murphy Productions devido ao alegado uso sem autorização da sua identidade na série “Feud: Bette and Joan“.

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