Apesar das toneladas de sequências de ação distribuídas ao longo dos seus 147 minutos, Kokurojo (internacionalmente Le Château d’Arioka) tem um efeito às avessas do épico, mas assume-o deliberadamente. As katanas sujas de sangue e as flechas a cruzar o céu não abalam as estruturas do real protagonista desta incursão de Kiyoshi Kurosawa pelo chanbara, o género de samurais: um castelo. A decadência que o cerca é inegável e também irretrocedível, ao ponto de contaminar a direcção de arte nada convencional de Tetsuo Harada, a parecer um corpo em decomposição. É um sinal de um feudalismo agonizante que parece não dar atenção devida ao Tempo, num desafio a ele, disposto a existir como um fantasma na História.

De fantasmas, Kiyoshi entende bem. É um dos grandes nomes do terror no audiovisual há cerca de três décadas. Nascido em Kobe, no Japão, há 70 anos, lançou três filmes em 2024 e não se cansa de imaginar histórias de morte (muitas delas com celebrações da vida), coroadas com prémios nas maiores maratonas cinéfilas do mundo. Daí estar na secção Cannes Première com uma longa-metragem que, dado o seu histórico popular, tem potencial para se tornar um sucesso de bilheteira, sobretudo na Ásia. Vindo de uma pátria que produziu titãs como Kenji Mizoguchi, Yasujirō Ozu, Hayao Miyazaki e Akira Kurosawa — de quem é homónimo no apelido, embora sem parentesco —, Kiyoshi é um artesão do medo, a esculpir esse substantivo na forma de thrillers, como Kairo (2001) e Creepy (2016). Chegou a subverter o género ao mesclar tropos hitchcockianos com elementos de melodrama em Wife of a Spy (2020), que lhe valeu o prémio de Melhor Realização no Lido.

Em fevereiro de 2024, no seu ano mais prolífico, eletrizou a Berlinale com a média-metragem Chime, no qual um professor sente calafrios ao ouvir um ruído misterioso. Em setembro, partiu para o norte de Espanha, para a competição oficial do Festival de San Sebastián, onde concorreu à Concha de Ouro com Le Chemin du Serpent, sobre a aliança entre um jornalista e uma médica em busca de vingança contra uma organização criminosa. Semanas antes, estivera em Festival de Veneza com Cloud, apontado por parte da crítica como o seu auge — leitura que Kokurojo vem agora contrariar.

O Japão feudal nunca foi, à partida, território para um cronista da maldade que habita na rua ao lado, no sorriso matreiro de estranhos à volta das suas personagens. De mãos dadas com a tradição do chanbara, apoiado na sua intimidade com a representação da violência, Kurosawa constrói com rigor o relato sobre os feitos do suserano Murashige (Masahiro Motoki, impávido colosso em cena), que se encerra no seu castelo e mantém ali, como prisioneiro, o seu inimigo, o estratega Kanbei (Masaki Suda), a quem decide poupar. Ao longo das estações, crimes inexplicáveis perturbam a ordem do local. Murashige conduz a investigação, mas de cada vez depara-se com uma peça em falta que apenas Kanbei, da sua cela, parece capaz de decifrar. Entre desconfiança e domínio, a relação entre ambos transforma-se, enquanto novos assassinatos ocorrem e Murashige perde, pouco a pouco, o controlo do que se passa no seu próprio castelo. Cria-se entre carcereiro e encarcerado a dinâmica descrita por Friedrich Nietzsche como “dialética do cordeiro e da ave de rapina”: dominado e dominador dependem um do outro, numa simbiose perversa. As fundações do castelo são testemunhas.

Kiyoshi Kurosawa parte do romance histórico O Samurai e o Prisioneiro, de Honobu Yonezawa. Aposta numa encenação austera, reforçando a falência daquele universo sitiado. Segue um percurso próximo do de Luchino Visconti em O Leopardo (1963), ao inventariar a decadência de uma aristocracia incapaz de lidar com o torvelinho histórico da passagem do feudalismo ao mundo moderno. Resta a esse senhor de terras mandar matar e segurar a espada com a pouca retidão que lhe resta. É um retrato crítico de uma transformação política radical, de uma reeducação do poder — fiel ao trilho autoral de um realizador cada vez mais maduro.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
kokurojo-o-chanbara-na-lamina-do-medoKiyoshi Kurosawa parte do romance histórico O Samurai e o Prisioneiro, de Honobu Yonezawa. Aposta numa encenação austera, reforçando a falência daquele universo sitiado.