Morreu aos 96 anos a atriz britânico-americana Joan Fontaine. Segundo o The Hollywood Reporter, que cita Susan Pfeiffer, assistente de Fontaine, a atriz faleceu de causas naturais na sua casa em Carmel, na Califórnia.
Nascida em Tóquio a 22 de outubro de 1917 e batizada com o nome Joan de Beauvoir de Havilland, Joan Fontaine sempre teve fortes ligações à arte de representar. A sua mãe, Lilian Augusta Ruse, foi atriz de teatro e a sua irmã mais velha, Olivia de Havilland, foi também uma conceituada atriz que participou em inúmeros filmes de Hollywood, como As Aventuras de Robin dos Bosques (1938), E Tudo o Vento Levou (1939) e A Herdeira (1949).
Quando foi para os EUA, em 1934, foi apresentada à atriz May Robson, iniciando uma carreira no teatro com a peça Kind Lady e, logo depois, em Call it a Day. Foi durante uma das apresentações dessa peça que foi vista pelo produtor Jesse Lasky, resultando num contrato com a RKO. A sua estreia no cinema deu-se em 1935, com uma pequena participação no filme Basta de Mulheres, protagonizado por Joan Crawford. Seguiram-se Bairro Elegante (1937), O Homem que se Reabilitou (1937), Canto Só para Ela (1937) e Uma Donzela em Perigo (1937) – no qual participava Fred Astaire.
Sem grande sucesso, o seu contrato não seria renovado em 1939. Diz-se que a sua sorte mudou numa festa na casa de Charlie Chaplin, onde jantava ao lado do produtor David O. Selznick. Os dois falaram sobre a obra de Daphne du Maurier, Rebecca, e Selzinick convidou-a para fazer um teste para a versão cinematográfica do romance, que marcaria a estreia americana do realizador inglês Alfred Hitchcock. Fontaine acabaria por ganhar o papel, batendo atrizes como Vivien Leigh e Anne Baxter, sendo de tal maneira sucedida que foi mesmo nomeada ao Oscar. Não ganhou, mas um ano depois, em Suspeita, também de Hitchcock, receberia mesmo a estatueta, tornando-se a única atriz a conquistar um Oscar sob a direção do britânico. Essa vitória ficou ainda marcada pelo facto de Fontaine ter batido, nessa mesma cerimónia, a sua irmã [Olivia de Havilland], que estava nomeada por A Minha História (1941).
Ainda nos anos 40, Fontaine ganharia mais fama, em particular por filmes românticos como De Amor Também se Morre (1943), que lhe valeu uma nomeação aos Óscares, A Paixão de Jane Eyre (1943), A Gaivota Negra (1944), Os Amores de Susana (1945), Esposa e Camarada (1946), Carta de Uma Desconhecida (1948), A Valsa do Imperador (1948) e Sejamos Alegres (1948), mas também por obras de mistério e crime, como Lábios Que Envenenam (1947) e Beija o Sangue das Minhas Mãos (1948).
Nos anos 50 perde algum protagonismo no cinema e na década de 60 dedica-se mais ao teatro e à TV. Ainda assim, participa em filmes como A Deusa do Mal (1950), Alice Brincou com o Fogo (1951), Renúncia (1952), Ivanhoe (1952), Destino a Tânger (1953), O Bígamo (1953), Serenata (1956), A Verdade e o Medo (1956), Uma Ilha ao Sol (1957), Terna É a Noite (1962) e The Witches (1966), naquela que seria a sua última presença no grande ecrã. Foi também nesta década, mais propriamente em 1960, que ganhou uma estrela no famoso Passeio da Fama.
Já na TV surge em programas como General Electric Theater (1956-1961), The Alfred Hitchcock Hour (1963), Ryan’s Hope (1980) e O Barco do Amor (1981).
Casada por quatro vezes, Fontaine teve uma filha, Deborah ‘Debbie’ Leslie Dozier, tendo ainda adotado uma menina peruana de quatro anos, Martita, logo após visitar um festival sul americano em 1951. Consta que a atriz comprometeu-se com os pais biológicos da criança que quando a rapariga fizesse 16 anos regressaria para os ver. Quando a jovem chegou a essa idade, Fontaine cumpriu a promessa e comprou um bilhete a Martita, mas esta fugiu de casa. Extremamente desapontada por não ter cumprido a promessa, Fontaine – e segundo declarações prestadas à imprensa quando promovia a sua biografia em 1978 – recusou receber novamente Martita, declarando: «até que a minha filha adoptiva não vá ver os pais biológicos, não é bem vinda. Eu prometi aos pais dela. Eu não perdoo a que me faz falhar com a minha palavra».
Este não foi o único caso problemático na vida de Fontaine. Conta o biografo Charles Higham, no livro Sisters: The Story of Olivia De Haviland and Joan Fontaine, que as irmãs Olivia de Havilland e Joan Fontaine sempre tiveram uma relação difícil, começando na infância, logo pelo facto da mãe ter (supostamente) favorecido a mais velha, recusando-se mesmo a deixar Fontaine usar o nome da família. Assim, Joan viu-se obrigada a criar um nome, tendo primeiro escolhido Joan Burfield e, posteriormente, Joan Fontaine.
Olivia de Havilland e Joan Fontaine
O mesmo biografo aponta ainda atritos entre as irmãs na noite de entrega dos Oscares de 1942 [Fontaine terá recusado os cumprimentos de Olivia pela sua vitória], tendo as duas irmãs cortado efetivamente relações já nos anos 70. Numa entrevista em 1979, Fontaine disse que a razão pela qual parou de falar com irmã foi porque Havilland queria que a mãe (que sofria de cancro) fosse operada aos 88 anos e que, quando esta morreu, Havilland nem sequer se preocupou em a tentar encontrar para noticiar a morte da matriarca (Fontaine estava em tournée). Em vez disso, Havilland enviou apenas um telegrama, que só foi entregue a Fontaine duas semanas depois do óbito.
Ambas as irmãs sempre se recusaram a comentar publicamente as suas divergências, embora numa entrevista com John Kobal, Fontaine tenha afirmado que a chamada rivalidade era uma farsa inventada pelos estúdios por questões de publicidade.

